Depois, ele fez uma reverência, Yoshi retribuiu, os dois foram para seus palanquins, e todos na praça suspiraram de alívio, porque a provação terminara e o esperado banho de sangue não se consumara.
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Sexta-feira, 21 de novembro:
A estação de posta de Otsu estivera movimentada durante o dia inteiro, num crescendo de excitamento, a expectativa acompanhada pelo medo, nos preparativos finais para a escala naquela noite dos augustos visitantes, o xógum Nobusada e a princesa Yazu. Há semanas que os cidadãos varriam as ruas, limpavam todas as habitações e privadas externas... telhados, paredes, poços, jardins, novos ladrilhos,
Começara no momento em que se soubera que os abençoados visitantes haviam declinado a hospedagem no castelo próximo de Sakamoto, pertencente ao xogunato, que ornamentava a região antes mesmo de Sekigahara, preferindo a estalagem.
— Tudo deve ser perfeito! — gemia o proprietário, extasiado, mas ao mesmo tempo apavorado. — Qualquer coisa que não estiver perfeita valerá a degola ou no mínimo uma surra de chicote, quer seja homem, mulher ou criança! A história da honra que nos foi concedida nesta única noite será lembrada pelos tempos afora... o nosso sucesso ou fracasso! O lorde xógum em pessoa? Com toda a sua glória? E a esposa, uma irmã da divindade? Oh ko...
Ao final da tarde, velado, cercado por guardas e conselheiros, a salvo de qualquer observador, o xógum Nobusada deixou apressado seu palanquim e atravessou os portões para a área isolada da estalagem que lhe fora reservada, acompanhado pela princesa imperial e sua comitiva de guardas pessoais, servidores, damas de companhia e criadas. Havia quarenta bangalôs tradicionais, cada um com quatro cômodos, em torno do santuário interior dos aposentos e casa de banho do xógum. Muitos tinham varandas interligadas, num labirinto de agradáveis caminhos, pontes sobre laguinhos e regatos, que desciam das colinas, tudo cercado por uma sebe espessa e aparada.
O quarto era aconchegante e impecável, com novos tatames e braseiro polidos. Nobusada tirou o chapéu velado e as roupas externas, cansado e irritado. Como sempre, o palanquim fora desconfortável e houvera solavancos.
— Já detesto este lugar — disse ele a seu camareiro, cuja cabeça encostava no chão, ao lado de uma fileira de criadas. — É muito pequeno e fedorento. Sinto todo o corpo dolorido. Já aprontaram o banho?
— Já, sim, Sire, tudo como determinou.
— Otsu finalmente, Sire — disse a princesa Yazu, o tom jovial, entrando junto com algumas damas de companhia. — Amanhã chegaremos a casa e tudo será maravilhoso.
Ela tirou também o enorme chapéu velado e as roupas externas, jogando tudo ao chão. As criadas se apressaram em recolhê-las.
— Amanhã estaremos em casa! Em casa, Sire! Valeu a pena seguir pelo caminho mais rápido, neh?
— Claro que sim, Yazu-chan — murmurou Nobusada, sorrindo, contagiado pela exuberância da esposa.
— Vai conhecer todos os meus amigos, primos, tias, tios, irmã mais velha e irmã mais nova, meu querido meio-irmão Sachi, ele tem nove anos... — Ela rodopiou, na maior felicidade. —... e centenas de outros parentes. Dentro de poucos dias conhecerá o imperador, que o receberá como se fosse um irmão também, e resolverá todos os nossos problemas. Depois, poderemos viver em tranquilidade para sempre. Faz frio aqui. Por que não está tudo pronto? E o banho?
O camareiro, corpulento e grisalho, de cinqüenta anos, com poucos dentes e enorme papada, chegara um dia antes, com um grupo de criadas e cozinheiros, a fim de aprontar os aposentos e preparar os alimentos e frutas, com uma abundância de arroz polido, para o delicado estômago do xógum, e que a princesa exigia. Havia magníficos arranjos de flores, feitos por um mestre de ikebana. Mais uma vez, o camareiro fez uma reverência, enquanto a amaldiçoava no íntimo.
— Os braseiros extras já estão prontos, alteza imperial. O banho também, assim como a refeição leve que pediu, junto com o xógum Nobusada. O jantar já foi preparado, será suntuoso...
— Emiko! Nosso banho!
No mesmo instante, a principal dama de companhia se adiantou e levou-a pelo corredor, cercada pelas outras e por várias criadas, como a rainha que era. Nobusada lançou furioso olhar para o camareiro e bateu com o pé, bem pequeno.
— Por que me deixam esperando? Mostre-me o banho e mande chamar a massagista. Quero uma massagem nas costas agora. E providencie para que não haja qualquer barulho... proíbo o barulho!
— Pois não, Sire. O capitão dá essa ordem todos os dias. Mandarei a massagista para a casa de banho. Sako estará...
— Sako? Ela não é tão boa quanto Meiko... Onde está Meiko?
— Sinto muito, Sire, mas ela ficou doente.
— Diga a ela para melhorar até o pôr-do-sol! Não é de admirar que ela esteja doente, pois eu também me sinto mal! Que viagem horrível! Baka! Quantos dias na estrada? Deve ter sido no mínimo cinqüenta e três, e menos do que... por que toda a pressa...