A duzentos metros dali, na margem leste da aldeia, havia uma velha casa de camponeses, meio em ruínas, ao final de uma viela, não muito longe da Tokaidô e da barreira de Otsu. Lá dentro, o líder do grupo de ataque dos shishi, um jovem de Choshu chamado Saigo, olhava ameaçador para o camponês, sua esposa, quatro filhos, pai e mãe, irmão e uma criada, ajoelhados num canto, apavorados. Aquele era o único cômodo, e servia tanto como área de comer quanto para dormir. Umas poucas galinhas esqueléticas, numa gaiola de ripas, cacarejavam nervosas.

— Lembrem-se do que eu disse. Vocês não sabem de nada, não viram nada.

— Sim, lorde, claro, lorde — balbuciou o velho.

— Cale-se! Fiquem de costas, virados para a parede, e fechem os olhos, todos vocês! Cubram os olhos com suas faixas!

Todos obedeceram no mesmo instante.

Saigo tinha dezoito anos, era alto e forte, com um rosto bonito e rude, usava uma túnica escura curta e calça iguais às dos samurais na estalagem, duas espadas, sandálias de vime, sem armadura. Após se certificar de que os camponeses se encontravam bem vendados, além de dóceis, foi sentar-se ao lado da porta, espiou pelos rasgões no papel da parede, e pôs-se a esperar.

Podia avistar a barreira e as casas da guarda com toda a nitidez. Ainda não era o pôr-do-sol, por isso a barreira continuava aberta para os retardatários. Ele e seus homens haviam levado vários dias para encontrar aquele lugar, ideal para seus propósitos. A porta dos fundos dava para um labirinto de vielas e passagens, perfeito para uma retirada súbita. Naquela tarde, no momento em que a comitiva do xógum passara pela barreira, ele tomara posse da casa.

Passos. Sua mão ajeitou a espada, depois relaxou. Outro jovem entrou, em silêncio, seguido por mais um, de uma direção diferente. Logo havia mais sete lá dentro. Um permanecia de guarda lá fora, outro na esquina da viela com a Tokaidô, com um outro escondido na aldeia, para atuar como mensageiro e partir a galope, a fim de transmitir a boa notícia do êxito do atentado a Katsumata, em Quioto, o que seria o sinal para atacar Ogama e os portões. Eram jovens determinados, vestidos como ele, sem armadura ou identificação, antigos goshi — o grau mais baixo de samurai — e agora ronin, todos mais ou menos da mesma idade, de dezenove a vinte e dois anos. Apenas Saigo, com dezoito anos, e Tora, com dezessete, o segundo no comando, eram mais novos. A aragem que entrava pelas frestas da janela fazia-os estremecer... isso e mais a tensão.

Através de sinais, ele indicou que todos deveriam verificar suas espadas, shuriken e outras armas letais... não havia necessidade de palavras durante toda a operação. Todo o planejamento fora definido ao longo de vários dias. Haviam concordado que o ataque deveria ser desfechado em silêncio. Um olhar pela janela. O sol encostava no horizonte, o céu ainda era claro. Chegara o momento.

Solene, Saigo fez uma reverência para seus companheiros, que retribuíram. Ele tornou a se virar para os camponeses.

— Três homens estarão lá fora — avisou, em tom ríspido. — Qualquer sussurro de vocês, até eu voltar, e eles incendiarão tudo.

Outra vez o velho balbuciou um assentimento.

Saigo gesticulou para os outros. Todos o seguiram, inclusive o guarda lá fora, e o que se postava na esquina. Não era mais possível voltar atrás. Os que eram budistas murmuraram uma prece final diante de um santuário, enquanto os xintoístas acendiam um último bastão de incenso, juntando seus espíritos ao filete de fumaça, que representava a fragilidade da vida. Todos haviam escrito seus poemas de morte, que estavam nos bolsos das túnicas. Orgulhosos, indicaram seus feudos corretos, apenas os nomes eram falsos.

Na viela, dividiram-se em duplas, seguindo por caminhos separados. Logo assumiram suas posições, agachados entre o mato alto junto acerca do perímetro, nos fundos da estalagem, à vista uns dos outros, Saigo no canto sudeste. A cerca tinha três metros de altura, resistente, de bambus gigantes, com espigões no topo. Àquela altura, as sombras começavam a perder as formas face ao crepúsculo que se adensava.

Esperando. Coração batendo forte dentro do peito, palmas suadas, atentos ao menor ruído de uma patrulha inimiga. Um gosto estranho e forte em cada boca.

Pontadas de dor nas virilhas. Em algum lugar nas proximidades, um grilo iniciou seu chamado urgente de acasalamento, lembrando Saigo de seu poema de morte:

Um grilo com seu canto alegre,

Mesmo assim morre num instante,

Melhor partir alegre do que triste.

Ele sentiu os olhos se enevoarem, da mesma forma que acontecia com o céu. Era lindo experimentar tamanha felicidade e, ao mesmo tempo, uma tristeza tão profunda.

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