O capitão da escolta esperava pelo camareiro no jardim. Era barbudo, experiente, na casa dos trinta anos, um mestre renomado com a espada. Seu aiudante de ordens se aproximou.

— Está tudo em ordem, senhor.

— Ótimo. Já deve ser rotina, a esta altura. — A voz soou cansada e nervosa. Ambos usavam armaduras leves de viagem, chapéu e duas espadas, por cima da túnica do xogunato. — Só mais um dia... e depois nossos problemas vão piorar. Ainda não posso acreditar que o conselho e o guardião tenham permitido uma viagem tão perigosa.

O ajudante-de-ordens ouvira o mesmo protesto todos os dias.

— Tem razão, capitão. Mas pelo menos estaremos em nosso quartel, com mais centenas de homens.

— Não é suficiente, nunca é suficiente. Não deveríamos ter partido. Mas aconteceu e karma é karma. Inspecione o resto dos homens e verifique se é correta a escala dos guardas. E mande o mestre dos cavalos dar uma olhada em minha égua, acho que o casco esquerdo partiu... — Ferrar cavalos era algo desconhecido no Japão na ocasião. — Ela quase refugou ao passar pela barreira, mas depois se recuperou. Volte para me apresentar um relatório.

O homem se afastou, apressado. O capitão sentia-se mais satisfeito do que o habitual. A inspeção da estalagem e do terreno, dentro das altas cercas de bambu do perímetro externo, e daquele setor em particular, cercado por sebes, com um único portão, deixara-o convencido de que o conjunto de bangalôs do xógum seria fácil de defender. A estalagem fora vedada a quaisquer outros viajantes naquela noite, as sentinelas conheciam a senha e todos se mantinham em alerta máximo. Ninguém podia se aproximar a menos de cinco metros do xógum e sua esposa sem permissão e ninguém, jamais, com qualquer arma... exceto o guardião, os anciãos do conselho e ele próprio, com os guardas que o acompanhassem. A lei era bastante conhecida, a punição para uma aproximação armada era a morte, tanto para o homem armado quanto para os guardas desatentos... a menos que fossem perdoados pelo xógum pessoalmente.

— Ah, camareiro! Houve alguma mudança de planos?

— Não, capitão. — O velho suspirou, coçou a testa, a papada tremendo. — Os augustos estão se lavando, como sempre; depois descansarão, como sempre; depois irão para o banho real e receberão uma massagem ao pôr-do-sol, como sempre; depois jantarão, como sempre; jogarão Go, como sempre, e irão se deitar. Tudo em ordem?

— Por aqui, sim.

O capitão tinha um destacamento de cento e cinqüenta samurais dentro do conjunto, que media cerca de duzentos metros quadrados. Uma unidade de dez homens guardava a única entrada, uma ponte sobre um regato, que levava aos portões ornamentados. Ao longo de toda a sebe do perímetro, havia samurais postados a intervalos de dez passos. Seriam substituídos por unidades dos seiscentos samurais nos alojamentos junto ao portão principal ou instalados em estalagens próximas. Patrulhas vasculhavam o jardim e a cerca, com extrema discrição, já que qualquer barulho e a presença óbvia de samurais irritavam a princesa e, em conseqüência, seu marido.

Acima deles, as nuvens pareciam engrossar, o sol enevoado ainda não alcançara o horizonte. Um vento alto tangia as nuvens. Fazia frio e tudo indicava que esfriaria ainda mais. Os servos acendiam lanternas entre os arbustos, a luz já refletida nos laguinhos, brilhando nas pedras umedecidas um momento antes para se obter esse efeito.

— É lindo — murmurou o capitão. — De longe a melhor, embora a maioria das outras estalagens também fosse boa.

Era a primeira vez que ele realizava uma viagem assim. Durante toda a sua vida estivera dentro ou nos arredores do castelo de Iedo, com Nobusada ou nas proximidades, ou junto do xógum anterior.

— Não resta a menor dúvida de que é lindo, mas eu preferia ter o lorde xógum e sua esposa no castelo Sakamoto. Você deveria ter insistido.

— Bem que tentei, capitão, mas... mas ela decidiu.

— Ficarei mais contente quando estivermos em nosso quartel e eles dentro dos muros do palácio... e ainda mais contente quando voltarmos, sãos e salvos, ao castelo em Iedo.

— Eu também — disse o camareiro, em particular cansado do xógum e da princesa, sempre encontrando defeitos, impertinentes e petulantes. Ainda assim, pensou ele, as costas doendo, querendo também um banho e uma massagem, e as atenções de seu jovem amigo, acho que eu seria igual, se fosse tão exaltado quanto eles, tão mimado, e tivesse apenas dezesseis anos. — Posso perguntar qual é a senha, capitão?

— Até a metade da noite será “arco-íris azul”.

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