NA tarde do mesmo dia, Jamie McFay saiu furioso do escritório do Yokohama Guardian. Ajeitou a última edição do jornal debaixo do braço e seguiu apressado pela High Street. A brisa era fria, com o cheiro de maresia, o mar estava encapelado, cinzento e inóspito. As passadas eram tão iradas quanto seu ânimo. Eu bem que gostaria que Malcolm tivesse me contado, pensou McFay. Ele perdeu o juízo, enlouqueceu por completo. Vai dar a maior encrenca.
— Qual é o problema? — perguntou Lunkchurch, vendo o jornal dobrado, preocupado com a pressa incomum de Jamie. Ele próprio ia buscar seu jornal, antes da sesta, e parara por um momento para urinar na sarjeta. — O duelo saiu no jornal, foi noticiado?
— Que duelo? — A voz de McFay era ríspida. Circulavam rumores de que ocorreria a qualquer momento, embora até agora ninguém tivesse sussurrado que seria depois de amanhã, na quarta-feira. — Pelo amor de Deus, pare de espalhar essa história!
— Sem ofensa, meu velho. — O homem enorme e corado abotoou-se, levantou o cinto por cima da pança, só para que escorregasse de novo. — Mas qual é o problema? Ele cutucou o jornal, antes de acrescentar:— O que o porra do Nettlesmith escreveu que o deixou tão irritado?
— Apenas a mesma coisa de sempre — respondeu McFay, evitando o verdadeiro motivo. — Seu editorial afirma que a esquadra está quase pronta para atacar, o exército afia suas baionetas, e dez mil sipaios virão da índia para nos ajudar.
— Tudo mentira!
— E isso mesmo. Ainda por cima, o desgraçado do governador está fazendo tudo o que pode, como sempre, para arruinar a economia de Hong Kong. Nettlesmith republicou um editorial do
— Essas porras de reuniões! Uma porra de perda de tempo! A porra do Governo! Devíamos ir para as porras das barricadas, como as porras dos franceses! Deveríamos estar bombardeando Iedo neste momento! Wee Willie não tem colhões e quanto a porra do Ketterer...
Lunkchurch continuou a vociferar por muito tempo depois de Jamie ter se afastado. Outras pessoas nas proximidades franziram o rosto e depois aceleraram os passos, a caminho do escritório do jornal.
Malcolm Struan levantou os olhos quando Jamie bateu na porta. Viu o jornal no mesmo instante.
— Ótimo. Eu já ia perguntar pelo jornal.
— Fui buscar um exemplar. Um passarinho me sussurrou que deveria.
— Ahn... — Malcolm sorriu. — Minha carta foi publicada?
— Deveria ter me avisado, a fim de que eu pudesse pensar numa maneira de diminuir o impacto.
— Acalme-se, pelo amor de Deus! — disse Malcolm, jovial. Ele pegou o jornal, abriu na seção de cartas. — Não há nada de errado em assumir uma posição moral. O ópio é imoral, e o mesmo acontece com o contrabando de armas, e não falei nada antes porque queria surpreendê-lo também.
— E pode ter certeza de que conseguiu! Isto vai enfurecer todos os mercadores por aqui e pelo resto da Ásia e vai provocar reações. Precisamos de amigos, tanto quanto eles precisam de nós.
— Concordo. Mas por que minha carta deve provocar reações? Ah, aqui está!
A carta ocupava a posição principal, com o título em destaque: CASA NOBRE ASSUME POSIÇÃO NOBRE!
— Bom título. Gosto disso.
— Desculpe, mas eu não gosto. Vai provocar reações porque todos sabem que temos de usar essas mercadorias ou estamos perdidos. Você é o
— Tudo no momento oportuno.
Malcolm permanecia calmo, embora lembrasse que a mãe cancelara a encomenda, e que ele a reconfirmara no mesmo instante, pelo correio mais rápido possível. Fora uma tolice da mãe, que nada entendia do Japão. Mas não importa, mais uns poucos dias, e ela será contida.
— Enquanto isso, Jamie — acrescentou ele, descontraído —, não há mal nenhum em assumir uma posição moral em público, não é mesmo? Não acha que devemos nos inclinar aos tempos?
McFay piscou os olhos, aturdido.
— Está querendo dizer que se trata de uma artimanha? Para confundir oposição?
— Inclinar aos tempos — repetiu Malcolm, feliz.