A carta defendia a proscrição do ópio e de armas, conforme o almirante queria e o enquadrava como partidário da veemente posição do almirante e do novo plano proposto pelo governo para a Ásia:
— Achei que expus tudo muito bem, Jamie. Não concorda?
— Claro que sim. Você me convenceu. Mas se é apenas para... — Ele já ia dizer “amansar”, mas a quem e por quê? — Se é apenas uma manobra, por que fazer isso? Não poderia haver pior momento. Você vai ser contestado na reunião.
— Pois que o façam.
— Vão pensar que enlouqueceu.
— Deixe-os pensar o que quiserem. Dentro de poucas semanas terão esquecido e, de qualquer maneira, já estaremos em Hong Kong a essa altura. —Malcolm estava radiante, no maior bom humor. — Não se preocupe. Sei exatamente o que estou fazendo. Faça-me um favor: mande um recado para o almirante, dizendo que eu gostaria de vê-lo antes do jantar. Também quero falar com Marlowe, assim que ele desembarcar. Os dois jantarão conosco às oito horas, não é?
— É, sim. Ambos aceitaram. — McFay suspirou. — Quer dizer que vai continuar a me manter em suspense sobre o motivo?
— Já disse que não precisa se preocupar. Tudo está perfeito. Agora, muito mais importante, precisamos preparar as encomendas de sedas para a próxima temporada. Cuide para que Vargas tenha os livros atualizados. Quero conversar com o nosso cambista sobre a moeda que usaremos e os recursos para a operação o mais depressa possível... e não se esqueça de que amanhã Angel e eu passaremos o dia inteiro ausentes, com Marlowe, a bordo da Pearl.
Ele teria dançado uma
Jamie achava-o muito estranho, não entendia mais nada. Cada navio procedente de Hong Kong trazia cartas para ambos, de Tess Struan, cada vez mais vituperiosas. Apesar disso, Malcolm se mostrava completamente à vontade, tal como era antes da Tokaidô, bem-humorado, lúcido, atento, dedicado aos negócios, embora ainda em extremo desconforto e andando mal. Ainda por cima, havia o risco iminente do duelo na quarta-feira, depois de amanhã.
Por três vezes, McFay procurara Norbert Greyforth, na tentativa de promover um acordo, até recrutando a ajuda de Gornt, mas nada fora capaz de dissuadi-lo.
— Jamie, diga àquele sujeito que tudo depende dele — respondera Norbert. Afinal, foi ele quem começou esta merda. Se me pedir desculpas, eu aceitarei... se for um pedido público, e põe público nisso!
McFay mordeu o lábio. Seu último recurso era sussurrar a hora e o local para Sir William, mas detestava a idéia de violar seu juramento solene.
— Vou me encontrar com o patife do Gornt para acertar os últimos detalhes, às seis horas.
— Ótimo. Lamento que você não goste de Gornt, Jamie, pois ele é um bom sujeito. É mesmo. Convidei-o para esta noite. — Imitando o sotaque escocês, Malcolm acrescentou, divertido: — O prazer da sua companhia ao jantar.
McFay sorriu, acalmado pela cordialidade.
— Posso...
Uma batida na porta interrompeu-o.
— Entre.
Dmitri entrou, como um furacão, deixando a porta aberta em sua esteira.
— Você enlouqueceu, Malc? Como a Struan pode apoiar esses idiotas sobre o ópio e armas?
— Não há mal nenhum em assumir uma posição moral, Dmitri.
— Mas é mesmo uma loucura! Se a Struan assumir essa posição, nós todos teremos de lutar contra a correnteza! O desgraçado do Wee Willie vai usar isso para...
Ele parou de falar, quando Norbert Greyforth também entrou na sala, sem bater.
— Você ficou louco? — berrou Norbert, inclinando-se sobre a mesa e sacudindo o jornal diante do rosto de Malcolm. — O que diz do nosso acordo para agirmos juntos?
Malcolm fitou-o nos olhos, odiando-o, no mesmo instante lívido.
— Se quer um encontro, marque antes — disse ele, com extrema frieza, mas controlado. — Estou ocupado. E agora saia. Por favor!
Norbert corou, também advertido por Sir William de que deveria se comportar ou sofrer as conseqüências. Seu rosto contraiu-se em raiva.
— Quarta-feira, cedo, por Deus! Não deixe de aparecer! Ele virou-se e saiu, batendo a porta.
— Um desgraçado grosseiro — murmurou Malcolm.
Em circunstâncias normais, Dmitri teria rido, mas agora sentia-se preocupado demais.
— Já que estamos no assunto, é melhor eu lhe dizer logo que não vou participar da “reunião” da quarta-feira.