Koiko mal ouvia as palavras. Observava-a como um camundongo olharia uma serpente pronta para o bote, sem qualquer pensamento em sua cabeça agora a não ser como escapar, como fazer com que tudo aquilo fosse um sonho. É um sonho? Seja sensata, sua vida está em jogo, mais do que sua vida, deve manter o controle.

— Dê-me sua faca.

Sumomo não hesitou. Enfiou a mão por dentro da obi, entregou a faca na bainha. Koiko pegou a lâmina como se estivesse em brasa. Sem saber o que mais fazer com aquilo, jamais tendo manipulado, possuído ou precisado antes de uma faca, todas as armas eram proibidas no mundo flutuante, ela a enfiou em sua própria obi.

— O que quer conosco? — indagou ela, a voz quase inaudível. — Por que está aqui?

— Só desejo viajar em sua companhia, dama — respondeu Sumomo, como se falasse a uma criança, sem compreender que seu rosto se tornara duro. — Apenas viajar em sua companhia, não há outro motivo.

— Fazia parte dos assassinos que atacaram o xógum Nobusada?

— Claro que não. Sou apenas uma leal partidária, uma ami...

— Mas foi você a espia que sussurrou que meu lorde ia deixar seu quartel para se encontrar com Ogama... foi você!

— Não, dama, juro que não fui eu. Já disse que ele não é o inimigo, o atacante não passava de um louco solitário, não era um dos nossos...

— Tem de partir... deve partir... — insistiu Koiko, num fio de voz. — Por favor, vá embora. Agora, por favor. Depressa.

— Não há necessidade de se preocupar ou ter medo. Nenhuma.

— Mas eu sinto. Estou apavorada com a possibilidade de que alguém venha a denunciá-la. Yoshi...

As palavras pareceram ficar suspensas no ar, entre as duas. Os olhos se encontraram, Sumomo determinada, Koiko desamparada e se intimidando sob a força daquele olhar. As duas davam a impressão de terem envelhecido, Koiko angustiada por ter sido tão ingênua, por seu ídolo tê-la usado de uma forma tão insidiosa. Sumomo furiosa por ter sido tão estúpida ao não concordar de imediato quando a prostituta intrometida propusera que ela fosse embora. Tola, tola, as duas pensavam naquele momento.

— Farei o que está dizendo — murmurou Sumomo. — Irei embora, apesar...

A porta de shoji foi aberta. Yoshi entrou, lépido, encaminhou-se para o cômodo interno. O transe das duas se dissipou. Fizeram uma reverência apressada. Ele parou no meio de um passo, todos os sentidos bradando perigo.

— O que houve? — indagou ele, ríspido, pois percebera o instante de medo, antes de as cabeças se inclinarem.

— Na... nada, Sire — respondeu Koiko, recuperando o controle, enquanto Sumomo se apressava para o braseiro, a fim de buscar chá fresco. — Deseja um chá? Talvez a primeira refeição?

Os olhos de Yoshi deslocaram-se de uma mulher para outra.

— O que houve? — perguntou ele de novo, devagar, as palavras como pingentes de gelo.

Sumomo ajoelhou-se, humilde.

— Sentimos muito não podermos acompanhá-lo, Sire. Era por isso que a dama Koiko se mostrava tão triste. Posso servir o chá, Sire?

O silêncio foi se tornando opressivo. Yoshi cerrou os punhos na altura dos quadris, o rosto duro, as pernas nuas bem plantadas no chão.

— Koiko! Diga-me tudo! Agora!

A boca de Koiko começou a se mexer, mas as palavras não saíram. O coração de Sumomo parou, e depois trovejou em seus ouvidos, enquanto Koiko se levantava, lágrimas escorrendo, e balbuciava:

— Deve compreender... ela não é o que...

No mesmo instante, Sumomo ficou de pé, a mão direita entrou na manga e saiu com um shuriken. Yoshi rangeu os dentes ao vê-lo. O braço de Sumomo se contraiu para o lançamento — ele estava desarmado, um alvo aberto, suas espadas no cômodo interno. Yoshi desviou-se para a esquerda, na esperança de que o movimento pudesse confundi-la, preparando-se para arremeter contra a moça, os olhos fixados em sua mão. Imperturbável, Sumomo mirou seu peito e lançou o shuriken.

O círculo de aço com pontas afiadas girou pelo ar. Frenético, Yoshi arqueou corpo, desviou-se. Uma das pontas pegou a beira de seu quimono e cortou o pano, mas não atingiu a carne, desaparecendo pela tela de shoji e se cravando num dos postes do cômodo interno, enquanto Yoshi, desequilibrado pelo esforço extremo, esbarrava numa parede e caía ao chão.

Por um instante, tudo parecia um sonho lento...

Sumomo, estendendo a mão pela manga, a fim de pegar o próximo shuriken via apenas o grande inimigo, caído no chão, impotente, e sua prostituta retardada que causara aquela conclusão desnecessária, a fitá-la boquiaberta, um pilar de medo... mas não sentia medo, apenas exultação, certeza de que o momento era seu zênite, a culminação por que nascera, para a qual fora treinada durante toda a sua vida, e que agora, invencível campeã dos shishi, haveria de consumar, morrendo em seguida, para viver por toda a eternidade na lenda...

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