— Eu gostaria de tomar um chá.

— Agora mesmo.

O rosto feio de Hoag se encheu de alívio. Era a primeira vez que ela falava desde a manhã, de forma apropriada, coerente, e os primeiros momentos de volta eram sempre indicadores vitais. Quase dando vivas, Hoag abriu a porta pois embora Angelique falasse num fio de voz, não havia histeria, nem por baixo nem por trás, a luz em seus olhos era boa, o rosto não se achava mais inchado das lágrimas, e a pulsação, que ele contara enquanto segurava sua mão, era firme e forte, noventa e oito por minuto, não mais disparada de uma maneira assustadora.

— Ah Soh — disse ele, em cantonês —, traga um chá fresco para sua ama, mas não fale nada e saia logo em seguida.

Hoag voltou a sentar ao lado da cama.

— Sabe onde está, minha cara?

Angelique limitou-se a fitá-lo.

— Posso fazer algumas perguntas? Se estiver cansada, basta me dizer, e não tenha medo. Lamento, mas é importante para você, não para mim.

— Não tenho medo.

— Sabe onde está?

— Em meus aposentos.

A voz era monótona, os olhos vazios. A preocupação de Hoag aumentou.

— Sabe o que aconteceu?

— Malcolm morreu.

— Sabe por que ele morreu?

— Morreu em nossa noite de núpcias, na cama nupcial, e eu sou a responsável.

Sinos de advertência repicaram no fundo da mente de Hoag.

— Está enganada, Angelique. Malcolm foi morto na Tokaidô, há vários meses — disse ele, a voz calma e firme. — Lamento, mas essa é a verdade. Ele vivia de tempo emprestado desde então. Não foi culpa sua, nunca foi culpa sua, mas sim a vontade de Deus, e posso lhe assegurar uma coisa, com todo o meu coração, nós, Babcott e eu, nunca vimos um homem mais sereno, mais em paz na morte, nunca mesmo.

— Sou culpada.

— A única coisa pela qual você é responsável foi a alegria nos últimos meses de sua vida. Ele a amava, não é mesmo?

— Amava, mas morreu, e...

Angelique quase acrescentou e o outro homem também, nem sequer sei seu nome, mas ele também morreu, e me amava também, mas morreu, e agora Malcolm está morto, e...

— Pare com isso!

A voz ríspida arrancou-a da beira do abismo. Hoag recomeçou a respirar, sabia que aquilo tinha de ser feito, e depressa, ou ela estaria perdida, como outros que já vira antes. Precisava livrá-la do demônio que espreitava em algum lugar de sua mente, prestes a irromper, esperando para dar o bote, para transformá-la numa lunática incoerente ou no mínimo para afetá-la de uma forma radical.

— Sinto muito, mas você tem de entender isso da maneira correta. Só é cul... — em pânico, ele se conteve, antes de usar essa palavra, e trocou-a. — ...responsável pela alegria de Malcolm. Repita para mim. Só é res...

— Sou culpada.

— Diga comigo: só sou responsável por sua alegria — disse Hoag, com extremo cuidado, mais uma ordem, notando com alarme as pupilas anormais, revelando que ela retornava para a beira do abismo.

— Sou cul...

— Responsável, que droga! — exclamou ele, com uma ira simulada. — Diga comigo, só sou responsável por sua alegria! Responsável por sua alegria! Diga isso!

Ele viu o suor aflorar na testa, ela disse outra vez a mesma palavra, ele interrompeu-a, repetiu a palavra correta, “responsável, responsável por sua alegria!”, e mais uma vez ela disse a outra palavra, sendo corrigida, e enquanto isso Ah Soh trouxe o chá, mas nenhum dos dois a viu, e ela fugiu em terror, enquanto Hoag continuava a ordenar, Angelique continuava a recusar, até que, de repente, ela gritou em francês, a voz estridente:

— Está bem, está bem, só sou responsável por sua alegria, mas ainda assim ele está morto, morto, morto... meu Malcolm está morto!

Hoag tinha vontade de abraçá-la, murmurar que estava tudo bem, mas não o fez, julgando que era cedo demais. Sua voz era dura, mas não ameaçadora, e ele disse, em seu bom francês:

— Obrigado, Angelique, mas agora falemos em inglês. Lamento muito, todos lamentamos que seu adorável marido tenha morrido, mas a culpa não é sua. Diga isso!

— Deixe-me em paz! Saia daqui!

— Quando você disser que não foi culpa sua.

— Não... não... deixe-me em paz!

— Quando disser que não foi culpa sua!

Angelique fitou-o, odiando seu algoz, mas depois gritou, estridente:

— Não foi culpa minha, não foi culpa minha, não foi culpa minha! E agora que está satisfeito, trate de sair daqui!

— Depois que me disser que compreende que seu Malcolm morreu, mas você não é absolutamente culpada por isso.

— Saia!

— Diga isso! Vamos, diga logo!

Subitamente, a voz de Angelique tornou-se como o uivo de uma besta selvagem:

— Seu Malcolm morreu, seu Malcolm morreu, morreu, morreu, morreu, mas não é cul... você não é culpada... não é culpada... culpa...

Tão abruptamente quanto começara, a voz se transformou numa lamúria:

— ...não é culpada, não sou culpada, não sou mesmo, oh, meu querido sinto muito, sinto muito, não o quero morto, oh, Santa Mãe, ajude-me, ele está morto, e eu me sinto horrível, oh, Malcolm, por que você morreu, eu o amava tanto, tanto, tanto... oh,Malcolm...

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