— Na condição de Malcolm, Jamie, tal rompimento poderia ser causado por qualquer um de meia dúzia de movimentos bruscos, como dormir de mau jeito, virar-se de repente porque teve um pesadelo, até mesmo a pressão de um intestino com prisão de ventre.
— Ou mais ainda durante o intercurso sexual?
— Essa é uma das várias possibilidades. Por quê?
— Ora, você conhece Tess Struan muito bem.
— Não vou culpar Angelique, se é isso o que quer saber. Afinal, há necessidade de duas pessoas para o ato, e ambos sabemos que ele fez de tudo para casar, estava perdidamente apaixonado.
— Não estou querendo saber de nada, Doc. Tess vai culpá-la de qualquer maneira, independente do que diga o atestado.
— Concordo, Jamie, mas ela não terá nenhuma ajuda da minha parte. Nem de George. É evidente que um intenso orgasmo causou o rompimento e o subseqüente sono eufórico dos dois encobriu o problema. Isso é lógico, mas nada pode ser provado; e mesmo que fosse possível, ela não tem a menor culpa, absolutamente nenhuma...
Pobre Angelique, ela será culpada, como eu também. Mas não importa no meu caso.
— Quem é? Pode entrar. Ah, olá, Edward.
— Tem um segundo? — perguntou Gornt.
— Claro.
Desde ontem, seu relacionamento com Gornt era diferente. Insistira num tratamento pelo primeiro nome. Por Deus, pensou Jamie, como me enganei em relação a ele!
— Sente-se. Já falei uma dúzia de vezes, mas obrigado de novo... você salvou minha vida.
— Não foi nada. Só estava cumprindo meu dever.
— Graças a Deus por isso. Em que posso ajudá-lo?
— Corre o rumor de que vai enviar o corpo de Malcolm para Hong Kong,
onde será sepultado, e eu gostaria de saber se pode me arrumar uma passagem em seu navio.
— Claro. — Jamie hesitou. — Para apresentar seu relatório a Tyler Brock e Morgan?
Gornt sorriu.
— Não podemos evitar a verdade, Jamie. Levarei o resultado do inquérito, mas cabe a mim lhes contar diretamente, de homem para homem.
— Tem razão. — A tristeza tornou a dominar Jamie. — Lamento que Malcolm não esteja vivo para saber o que você fez por mim, e lamento também que agora ele não possa mais ser seu amigo, pois sei que o admirava muito. Lamento ainda que você trabalhe para eles.
— Depois do encontro, é bem provável que deixe de trabalhar. Só fui emprestado pela Rothwell. Portanto, isso não tem muita importância. Voltarei para Xangai, depois de Hong Kong.
— Se eu puder ajudá-lo por qualquer meio, basta me dizer.
— Não me deve nada, Jamie, pois apenas cumpri meu dever. Mas um homem sempre precisa de um amigo de verdade. Obrigado, e se me encontrar perdido, pedirei sua ajuda. Posso contar com um camarote no
— O navio vai zarpar amanhã de noite.
— A Sra. Struan também irá com ele? É difícil pensar em Malcolm como morto, não é?
— É, sim. O Dr. Hoag diz que ela terá condições de viajar até amanhã.
— Tremenda falta de sorte. Terrível. Obrigado, e até mais tarde.
Jamie observou-o sair, com uma estranha inquietação. Nada que pudesse definir. Acho que apenas me sinto tão desorientado que qualquer coisa me parece esquisita. Por Deus, até Hoag se comportou de um modo insólito, mas também sem nada de específico.
Ele se forçou a trabalhar por algum tempo e depois, precisando de alguns docurnentos na mesa de Malcolm, levantou-se, foi andando pelo corredor, até a sala do
— Pelo que sei...
Ele virou a cabeça.
— Olá, Jamie — disse Angelique, a voz calma. O vestido escuro realçava a textura de alabastro da pele, os cabelos erguidos acima do pescoço longo, os olhos claros, uma tênue cor natural nos lábios. — Como se sente?
— Ahn... estou bem — balbuciou Jamie, perplexo com seu controle e nova beleza... diferente de antes, agora um tanto distante, inacessível, mas ainda mais atraente. — Desculpe, mas eu não esperava... O Dr. Hoag disse para não incomodá-la até que me chamasse. Como se sente agora?
— Pedi a ele para fazer isso. Eu... estou bem, obrigada. Havia algumas coisas que eu queria acertar esta manhã. Fiquei desolada ao saber... do seu encontro fatídico com Norbert Greyforth. Pobre Jamie, saiu todo machucado... não sofreu nada mais grave, não é?
— Não, obrigado. — Jamie sentia-se cada vez mais desconcertado. A voz de Angelique era calma, calma demais, e havia nela uma certa dignidade, que no momento ele não podia definir. — Já soube que Edward Gornt salvou minha vida?
— Já, sim. Ele próprio me contou, há poucos minutos... para ser mais precisa, não foi bem assim. Ele veio apresentar suas condolências e o recebi. Foi o Sr. Skye quem me falou sobre sua bravura. E sobre o duelo.
— Ahn...
Jamie teve vontade de amaldiçoar Skye por sua interferência.