— Não pode fazer isso! A Sra. Struan deve... isto é, Tess Struan precisa de mais tempo. Mandaremos o
— Você pode fazer o que quiser, mas meu marido será sepultado depois de amanhã, como queria... não creio que haveria tempo para o que você sugere. Mas não vou discutir. Desculpe, velho amigo, mas é você quem está nervoso e posso compreender. Por favor, peça a Sir William e ao Sr. Skye para virem falar comigo, juntos, o mais depressa possível, e acertarei a questão formalmente.
— Pelo amor de Deus! A cripta da família em Happy Valley é o lugar em que estão sepultados o avô, o pai, os irmãos e irmãs!
— Jamie, estou me cansando de repetir. Por favor, peça a Sir William e ao Sr. Skye para virem até aqui o mais depressa possível. Juntos.
Ele não sabia o que fazer, por isso deu de ombros, impotente, e se retirou.
Durante alguns minutos, Angelique permaneceu imóvel na cadeira, respirando fundo. Não fora tão ruim assim, pensou ela, depois esticou-se, levantou-se, foi para seu quarto. Havia um vestido limpo separado, austero, cinza escuro, estendido na cama. O vento sacudia as janelas, mas não lhe provocou nenhum calafrio. O espelho a chamava. Examinou-se. Em termos críticos. Sem sorriso. Ficou satisfeita com o que viu. A nova pessoa em que se transformara também a agradava. Era como se ajustar a um novo vestido... não, a uma nova pele.
— Espero que dure — disse ela a seu reflexo. — Devemos nos empenhar para que dure. Esta minha personalidade é melhor do que a outra.
E ela pegou a primeira das cartas. As cartas de Tess Struan. Queria deixar a de Malcolm para o fim.
Sir William mantinha-se impassível. O mesmo acontecia com Jamie. Hoag e Babcott franziam o rosto. Heavenly Skye tinha um brilho divertido nos olhos, Todos sentavam em cadeiras diante da mesa de Malcolm. Angelique fitava-os de sua cadeira alta, pequena, mas segura ali. O vestido mais escuro do que antes, mangas três-quartos, decote quadrado, costas empertigadas, penteado impecável. Sem maquilagem, com uma aparência imponente.
— Depois de amanhã? — disse Sir William.
— Isso mesmo — confirmou Angelique. — Meu marido não deve ficar exposto por tempo demais para as pessoas prestarem sua última homenagem. Três dias não é o prazo normal, doutor?
— É, sim, Angelique, o normal — respondeu Hoag. — Mas já tomamos todas as providências para a preservação do corpo na viagem de volta a Hong Kong Tudo correrá bem, não precisa se preocupar. — Uma pausa, e ele acrescentou gentilmente: — Ele deve ser sepultado lá. Todos concordamos que é o melhor
— Já o embalsamaram?
Os homens se mexeram em suas cadeiras, apreensivos. Hoag disse:
— Não, pois não é o que se costuma fazer. Usamos... ahn... usamos gelo para garantir a preser...
— Gostaria de ser empacotado em gelo e despachado para Hong Kong como uma carcaça de carneiro da Austrália?
A tensão na sala disparou, os homens ainda mais embaraçados do que antes. A voz de Angelique permanecia serena, firme e cordial, o que tendia a enfurecê-los mais ainda. Exceto por Skye, para quem ela adquiria uma nova dimensão.
— Não é essa a questão, madame — disse Sir William. — Achamos que, por ele e pela família, o sepultamento em casa é o mais sensato.
— Ele admirava o avô, o
— É, sim. — Abruptamente, Sir William relaxou, não mais preocupado, pois agora tinha a solução para o enigma, independente do que ela pudesse dizer. — Todos sabem disso. Por quê?
— Muitas vezes, em várias palavras, Malcolm disse que queria viver como ele, ser lembrado como ele, e sepultado como ele. E é assim que será.
— Correto e muito sensato. — Sir William acrescentou, incisivo: — O avô está sepultado na cripta da família, no cemitério em Happy Valley. Angelique, concordo que deve ser assim com Malcolm. Compreendo agora...
— Mas Dirk Struan não foi sepultado em Hong Kong — declarou ela, surpreendendo a todos. — Sei que seu nome foi esculpido na lápide, mas ele foi sepultado no mar. Meu marido será sepultado no mar, da mesma maneira.
— Desculpe, Angelique, mas você se engana — interveio Jamie. — Eu estava presente, tinha acabado de ingressar na Struan, como um aprendiz de mercador na China, recém-chegado da Inglaterra, e compareci ao funeral. Foi imponente, com a presença de todos em Hong Kong. Houve até uma procissão imensa e separada em Chinatown, organizada por Gordon Chen.
— Desculpe, Jamie, mas é você quem se engana. Puseram um caixão vazio na cripta. Ele foi sepultado no mar, junto com sua amante, May-may, em águas internacionais, ao largo de Hong Kong. — Ela sentiu as lágrimas se aproximarem. Nada de lágrimas, ordenou a si mesma. Ainda não. — Ele foi sepultado no mar. Houve um serviço cristão, celebrado da maneira correta, como ele desejava, e as testemunhas foram Culum e Tess Struan, Gordon Chen e Aristotle Quance.
— Não é possível! — protestou Jamie.