— Por favor, pergunte quanto tempo levaria para fazer um vestido de luto, preto, como este.
O que ela usava era de mangas compridas, gola alta, azul marinho.
— Ele diz que três dias. Luto, senhora? A cor para o luto na China é branco.
— Eu quero preto. De seda. E amanhã.
— Três dias.
— Se ele levar meu outro vestido, o azul claro que fez para mim, e tingi-lo de preto, quanto tempo?
— Ele diz que dois dias.
— Diga a ele que a viúva do
O velho chinês suspirara, fizera uma reverência e se retirara. Depois, Vargas anunciara André Poncin.
— Olá, André.
— Olá. Nunca a vi mais linda.
Era uma declaração, não um galanteio.
— Preciso de conselho, depressa, e confidencial. Devemos ser rápidos e sensatos. Meu casamento é legal?
— Achamos que sim, segundo a lei naval britânica. Não temos certeza sob a lei francesa. Ambas são áreas meio indefinidas.
— Não entendi.
— Sujeitas a contestações. Se houvesse uma disputa entre advogados franceses e britânicos, a lei britânica prevaleceria. O fato de ele ser um menor, os dois para ser mais preciso, embora neste caso ele seja mais importante, somado à sua desobediência às determinações por escrito da tutora legal, significa que a cerimônia de casamento provavelmente será contestada.
— Onde? Aqui? Por quem?
— Por Tess Struan. Quem mais? — dissera André, zombeteiro.
— A morte de Malcolm não tem o menor significado para você, não é?
— Ao contrário, complicou demais a minha vida, madame — respondera ele, usando o título pela primeira vez. — É uma complicação séria para nós dois.
Angelique resolvera sentar por trás da mesa de Malcolm, na sala de Malcolm, pois seu futuro estava em jogo, e precisava ter cem por cento da astúcia daquele homem, e mais ainda. Em sua suíte, poderia se sentir menos confiante, embora costumasse se apresentar da melhor forma possível em seu
— E como se pode descomplicar a situação, André?
— Já descomplicou a primeira complicação.
Quando ela fugira em desespero para a legação, André a interceptara, quase a arrastara para seu escritório, critidando-a assim que a porta fora fechada, sacudindo-a, furioso, e dizendo: Sua idiota, você enlouqueceu? Volte para a casa dele e fique lá! Não pode se esconder aqui ou vai se arruinar! Volte para lá, sua tola! Conversaremos mais tarde e, pelo amor de Deus, não assine coisa alguma, não concorde com nada! Vamos, vá logo!
— Você tinha toda razão, André — dissera ela, sem qualquer ressentimento contra sua veemência, compreendendo tudo agora. — Obrigada por me falar de maneira que eu pudesse entender, penetrando minha angústia. Essa foi a primeira complicação. Qual é a seguinte?
As rugas na testa de André se aprofundaram. Aquela era uma nova Angelique, uma quantidade desconhecida, inesperada. Ele testemunhara uma mudança assim duas vezes antes, em homens, nunca em uma mulher. Ambos eram espiões inimigos, libertados após extrema tortura. Os médicos não tinham outra explicação que não dizer que os homens não mais sentiam medo, não mais temiam a tortura nem a morte. Haviam sido arrastados à beira do abismo, sobreviveram, e agora estavam convencidos, acima e além de qualquer dúvida, que sobreviveriam de novo, independente do que lhes fizessem, ou morreriam, e isso já não importaya mais. Os médicos disseram que a própria morte nada significaria, até o dia, semanas, meses ou anos depois, em que o terror tornasse a erguer sua vil cabeça, como era inevitável.
Pobre Angelique, sentada ali, tão confiante, tão pretensiosa... Virá o dia em tudo vai transbordar e destruí-la. Vai conseguir se sobrepor ou acabará num hospício?
Pessoalmente, ele poderia apostar que tantas calamidades seriam demais para uma jovem assim: a fuga do pai, o roubo de seu dote, o estupro e a gravidez, a morte do estuprador, e agora essa nova e terrível morte, cujos detalhes ele e toda a colônia conheciam. André e Seratard haviam esperado que a mente de Angelique se dissolvesse, há meses, ainda esperavam que isso acontecesse, nenhum dos dois acreditando em Hoag, quando o interrrogaram.
Se Hoag pôde realizar esse milagre, pensou ele, irritado, por que os médicos não podem curar a maldita doença inglesa? Não é justo.
— A vida não é justa, não é?
— Não — concordou Angelique —, nem um pouco.
— Ele deixou um testamento, indicando-a como sua herdeira?
— Não sei. Malcolm nunca me falou a respeito.
— Angelique, no futuro, refira-se a ele como seu marido e a si mesma como a viúva.
— Por quê?
— Para ajudar a firmar sua pretensão à herança.
Ele a vira acenar com a cabeça e se impressionara com seu controle. É um ato de Deus que ela possa parecer tão tranqüila?
— Se não houver testamento, isso faz alguma diferença?