— A Sra. Angelique Struan deve seguir com os restos mortais do marido: se não o fizer, vai prejudicar bastante sua posição, tanto em termos legais quanto públicos. Mas ir para Hong Kong? É perigoso.

Ele pedira a Babcott e Hoag que abrandassem a redação do atestado de óbito, mas fora informado, como já esperava, que não seria possível.

— Em minha opinião abalizada, a Sra. Angelique está certa ao não assumir o risco no momento, Jamie. Preocupo-me que ela se torne mais indefesa em Hong Kong do que aqui.

— Você iria também, e poderia proporcionar qualquer defesa necessária.

— É possível, mas o escândalo seria inevitável, e quero evitar isso a qualquer custo, para o bem de todos. Inclusive de Tess Struan. Ela não é tão ruim assim, se considerar sua posição do ponto de vista de uma mãe. Minha opinião abalizada e de que seria inevitável o mau cheiro... como evitá-lo ou atenuá-lo, essa é a questão.

— Talvez possa ser contido — disse Jamie. — Tess não é uma ogra, sempre foi justa, à sua maneira.

— Não será justa agora, não comigo — interveio Angelique. — Posso compreendê-la. Apenas uma mulher pode realmente compreender. Ela vai acreditar que roubei seu filho mais velho e o matei. Malcolm alertou-me contra ela.

— Para contê-la, precisamos de tempo — disse Skye. — Precisamos tempo para negociar e não haverá o suficiente antes de um sepultamento.

Quando os dois a deixaram, nada fora resolvido.

Não importa, pensou Angelique. Sepultarei meu marido como ele deseja, herdarei seus bens materiais, se há algum, vencerei Tess Struan. E serei vingada.

As cartas haviam-na magoado, mas não tanto quanto esperava. Suas lágrimas não eram lágrimas como antes. Não a abalaram como antes. E não sou mais como antes. Não posso entender. Estou realmente muito estranha. Será que vai durar? Espero que sim. Ah, Santa Mãe, como fui estúpida!

Pela janela, ela constatou que o dia logo viraria noite, avistou na baía as luzes dos navios, a bombordo e boreste, no alto dos mastros, piscando com o balanço das ondas. No braseiro, os carvões se ajustaram ruidosamente, as chamas se elevaram por um instante, atraindo sua atenção de volta ao problema. O que fazer?

Miss?

Ah Soh entrou na sala.

Tai-tai, Ah Soh! Você é surda?

Malcolm lhe explicara o que significava tai-tai e, em sua última noite, obrigara Ah Tok, Ah Soh e Chen a tratarem-na assim, em sua presença... e Skye também a lembrara de fazer os criados usarem o termo.

Miss, quer que eu arrume as coisas?

Tai-tai! Você é surda?

— Quer que eu arrume as coisas... tai-tai?

— Não. Amanhã, se der.

— Como, miss?

Angelique suspirou.

Tai-tai!

Miss tai-tai?

— Saia!

— Homem da medicina quer falar.

Ela já ia dizer “saia!” de novo, mas mudou de idéia.

— Que homem da medicina?

— O sapo, miss tai-tai.

Hoag. É verdade, ele parece um sapo, pensou Angelique, e se surpreendeu ao descobrir que estava sorrindo.

— Mande ele entrar.

Quando Hoag entrou, ela disse:

— Boa noite, doutor. Como tem passado? Estou bem agora, graças à sua ajuda.

— Está mesmo? — Ele tinha os olhos injetados de fadiga, o rosto pálido e amassado, como sempre, mas irradiava uma simpatia que era fascinante. Fitou-a nos olhos. — Tem razão, dá para perceber. Mas seja cautelosa, Angelique, não se exija demais, vá com calma. Use o bom senso.

— Prometo que farei isso.

— Foi maravilhosa esta tarde.

— Mas perdi.

— É verdade. George Babcott e eu lamentamos muito por isso, ficamos comovidos com a sua história, e o apelo de Heavenly. George vai jantar com Wee Willie e tentará de novo, mas eu... nós não temos muita esperança.

Ele a viu dar de ombros, apenas um gesto mínimo, e continuar a observá-lo, os olhos enormes na palidez de seu rosto.

— Precisa de alguma coisa? Para dormir ou se acalmar... não, posso ver que não precisa de nenhum calmante. Fico contente por isso, muito contente. Queria conversar um pouco com você... importa-se?

— Claro que não. Sente-se, por favor. Como foi a audiência? Ah, tem uísque e outras bebidas ali, se quiser.

— Obrigado.

No aparador, havia copos Waterford e garrafas de cristal, alinhadas como soldados, em descansos de prata georgiana, com rótulos também em prata pendurados no gargalo: Uísque, Conhaque, Xerez, Porto. Ele escolheu uísque, serviu-se de meio copo.

— A audiência transcorreu como se esperava, Edward Gornt foi absolvido de qualquer culpa e elogiado por sua bravura. O juiz sumariante, Skye, considerou que a morte de Greyforth foi acidental e Gornt perfeitamente correto ao tentar impedir o que poderia ter sido um assassinato brutal. Ficamos surpresos por ele ter usado palavras tão fortes, embora verdadeiras. — Hoag sentou na frente dela, ergueu o copo. — Saúde!

Salut! Estou contente por Edward. Ele merece muitos louvores.

— E você também. Sua história me deixou profundamente comovido.

— E é verdadeira. Também não acredita em mim?

— Claro que acredito. E é sobre isso que queria conversar. E a compreendo muito bem.

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