Depois, com eloqüência, Hoag relatou sua própria história, o tempo que passara no exército indiano, como se apaixonara e casara, contra todas as convenções, o ostracismo imediato, terrível, o retorno à Inglaterra. E a situação não melhorara ali.
— Tornou-se até pior. Arjumand morreu, era esse seu nome, o mesmo da amada de Shah Jahan, que construiu o Taj Mahal. — Ele olhava para o fogo contando a história ao fogo também, vendo imagens de seu amor ali, os dois juntos, nos dias felizes antes do casamento. — Fiquei muito triste, mas ao mesmo tempo contente, por ela não sobreviver demais no ódio. Pegou uma gripe e morreu depressa, como uma gloriosa planta de estufa numa aragem gelada... e ela era isso, não pode imaginar como era refinada, assim como não posso acreditar que ela me amava... pois sei como sou feio. Eu a amava loucamente e a matei.
— Seu rosto muda quando fala sobre ela. Não a matou. Foi o destino. Você não foi culpado.
Essa palavra de novo, pensou Angelique.
— Fui, sim, ao casar com ela, levá-la para a Inglaterra. May-may morrido também, desamparada, solitária, desesperada de saudade de sua terra. Nem mesmo o grande Dirk Struan poderia resistir à opinião pública, se não se tivessem casado. Ambos tiveram sorte de morrer daquele jeito. Angelique observava-o, viu seus olhos úmidos.
— Malcolm teve sorte por ter morrido como morreu? Disse que ele estava muito sereno. Morreria de qualquer maneira?
— Receio que sim. Poderia ter morrido a qualquer dia, a qualquer hora. Vivia em tempo emprestado e acho que sabia disso. Isso a deixou arrepiada. — Por que ele não foi informado... por que não o avisou, a nós dois?
— Foi um ato de Deus... não sabíamos, não com certeza, como sabemos agora. Era impossível saber ou teríamos avisado.
— Não estou entendendo. Diga-me a verdade, por favor. Preciso compreender.
Hoag explicou, gentilmente:
— Suas entranhas, por baixo e ao redor do ferimento, se encontravam em pior situação do que imaginávamos. George não podia sondar muito em torno do ferimento, quando o levaram ao hospital, pois isso o teria matado na ocasião. A autópsia revelou que ele estava apodrecendo.
— A operação foi bem-feita?
— Foi, sim, um trabalho de primeira classe. A reparação realizada por George foi admirável, tão boa quanto qualquer outro poderia fazer — declarou ele e Angelique acreditou. — O problema é que não podemos substituir, apenas reparar, e havia bolsas de septice... o motivo de tanta dor, pobre coitado... e lesões graves, que o impediam de se empertigar.
Uma pausa e Hoag acrescentou, desolado:
— Ele estava no final de seu tempo emprestado. Mesmo assim, tenho certeza que você transformou seus últimos dias nos mais felizes que qualquer homem poderia desfrutar.
Um carvão caiu no braseiro. Os olhos de Angelique desviaram-se nessa direção. A chama se elevou, tremeu, extinguiu-se... como meu Malcolm, pobre coitado, pobre amor.
— Triste — murmurou ela para o fogo. — Muito triste.
Hoag a avaliava, avaliava a si mesmo, e à lembrança de Arjumand... que Angelique fizera renascer. Era fácil decidir agora, depois de partilhar Arjumand, Pesou ele. Nervoso, ele terminou o drinque.
— Posso?
— Claro. À vontade.
Hoag tornou a se servir, em quantidade menor.
— Mas eu queria realmente falar sobre o sepultamento. Ainda é possível fazer o que você e Malcolm queriam.
— Como?
Ele voltou a sentar diante de Angelique.
— Sepulte-o no mar, como o avô, como ele queria, como você quer. Posso ajudá-la.
— De que jeito?
Hoag enxugou o suor da testa.
— Procure Sir William, diga que se submete ao inevitável, por mais que deplore sua decisão, vai permitir que o corpo seja enviado para Hong Kong. Amanhã, nós, Babcott e eu, levaremos o caixão para bordo do
— Mas o caixão segue vazio? — indagou Angelique, excitada.
Ele sacudiu a cabeça, a testa e as bochechas brilhando, à luz do fogo.
— Não. Haverá um corpo no caixão, mas não o dele. De um pescador coreano, que morreu em Kanagawa esta manhã, na clínica. Enquanto isso, o corpo de Malcolm fica em outro caixão, ainda em Kanagawa, secretamente. Se Jamie nos apoiar, poderia levar o cúter até lá amanhã, ao final da tarde. Sairemos para o mar, e se conseguirmos Tweet para oficiar a cerimônia, Malcolm poderá ser sepultado como você deseja. No dia seguinte, você embarca no navio de correspondência, sem que mais ninguém saiba... basta todos os envolvidos jurarem segredo.
— Há muitos “ses” — murmurou Angelique, o coração batendo forte.