— Obrigado — murmurou Gornt, mais consciente da presença de Angelique do que nunca.
— Decidi não viajar para Hong Kong no clíper.
— Já ouvi um rumor,
As mãos de Angelique repousavam tranquilas em seu colo, a voz era suave e controlada.
— Esses segredos que contaria a meu marido... vai revelá-los a mim?
Gornt exibiu seu lindo sorriso, fascinado por ela, sacudiu a cabeça.
— Lamento, madame, mas não... mesmo que tivesse algum. Ela balançou a cabeça, sem se mostrar ofendida.
— Nem esperava que me contasse. Tenho certeza que nunca os entenderia, se me dissesse tudo, e também não teria condições de aproveitá-los, não é mesno?
Gornt sorriu e ela acrescentou:
— Mas
— Como,
— Meu marido disse que se alguma coisa lhe acontecesse, você partiria no mesmo instante para Hong Kong, a fim de negociar diretamente com sua mãe, e fazer com Tess Struan o mesmo acordo que tinha com ele. E acrescentou que agia assim porque odiava os Brocks... não me explicou por que os odiava. — Angelique estendeu a mão, ficou mexendo na haste de seu copo. — Tess Struan com certeza poderia aproveitar as informações, se o que você alega for verdade, não é? Isso foi na terça-feira, antes de casarmos.
Gornt tornou a avaliá-la, com uma expressão satisfeita em seu rosto bonito.
— Posso compreender por que meu marido gostava de você, Edward, por que seria um inimigo perigoso e um amigo ainda mais perigoso.
Isso o fez rir, e a tensão entre os dois se evaporou.
— Não para você,
— Veremos. Temos muitas pontes a cruzar, você e eu, mas, por Deus, como diria meu marido, estou adotando suas esperanças e sonhos como meus: que você pode ajudar a Struan a destruir os Brocks, de uma vez por todas. Talvez seus sonhos e esperanças também.
— Meus?
Angelique abriu sua bolsa e tirou o papel que encontrara no compartimento secreto do cofre, levantou-o contra a luz e leu em voz alta:
— “
Ela estendeu o papel para que Gornt visse, mas não o entregou.
— A data é de anteontem, Edward, está assinado, mas sem testemunhas. Gornt não fizera qualquer menção de pegar o documento. Sua visão era ótima.
Enquanto Angelique lia, já reconhecera a assinatura. Sem as testemunhas, não tem valor real, pensou ele, sua mente se deslocando apressada de um plano para outro, de uma indagação a outra, para as respostas.
— E daí?
— Eu poderia testemunhar a assinatura de meu marido. Sua mente parou de girar, com um solavanco.
— De um modo geral, o testemunho da esposa à assinatura do marido não é válido.
— Digamos que eu testemunhasse no mesmo dia... antes do casamento.
De onde será que ela está tirando tudo isso?, especulou Gornt, frenético. De Jamie? De Heavenly? Ela até parece um dos novos rolos compressores de Stevenson.
— Mesmo assim, mesmo que o documento tivesse uma testemunha, não seria compulsório para a Casa Nobre.