O frio aumentara. Eles se agruparam da melhor forma possível, apoiando-se onde podiam. Jamie postou-se de costas para a popa, os outros de frente para ele.
— Tirem os chapéus — ordenou ele, tirando o seu primeiro.
Skye, Hoag, o foguista e o contramestre obedeceram. Ele abriu o livro dos regulamentos navais, na página marcada. Lendo e improvisando, Jamie disse:
— Estamos aqui reunidos à vista de Deus para lançar os restos mortais de nosso amigo Malcolm Struan, marido de Angelique Struan,
A menção do nome, os olhos do foguista se arregalaram e ele lançou um olhar para o contramestre, que sacudiu a cabeça, advertindo-o a ficar calado. Murmurando para si mesmo, detestando funerais, ele se aconchegou ainda mais em seu casaco, contra o frio do vento, querendo descer para sua quente casa de máquinas. O vento aumentou um nó. Todos perceberam a mudança. Jamie hesitou, e depois continuou:
— Agora, digamos a oração do Senhor. Pai nosso...
Cada um orou à sua maneira, murmurando as palavras, o movimento aumentado do convés predominando em suas mentes. Concluída a oração, Jamie olhou para o livro por um momento, não que precisasse, pois lera o serviço antes na casa do leme, mas necessitando de tempo para acalmar seu coração, e afastar seus pensamentos do mar. Enquanto os outros fechavam os olhos, ele mantinha os seus abertos. Assim como o contramestre, vira a linha da tempestade se aproxirnando por trás deles, as ondas maiores, ameaçadoras.
— Como capitão do cúter
Ele olhou para Angelique, que segurava um espeque com as duas mãos, as articulações esbranquiçadas. Uma rajada de vento a atingiu, comprimindo o véu contra o rosto.
— Quer dizer alguma coisa,
Ela sacudiu a cabeça, lágrimas silenciosas escorrendo. Os borrifos vinham de boreste, um pouco mais baixo, por causa do peso de todos e do caixão.
Desconsolado, Jamie fez um sinal para Skye e o foguista. Meio desajeitados, com um equilíbrio precário, eles soltaram as cordas que prendiam o caixão ao banco, empurraram-no com dificuldade para a amurada de boreste, a fim de lançá-lo ao mar. Jamie ajudou-os. Quando o caixão balançava na amurada, ele disse em voz alta, dominado por sua infelicidade:
— O pó voltará ao pó, o mar e o céu reivindicam o que é seu, e os ventos hão de sussurrar uns para os outros que este extraordinário jovem foi ao encontro de seu Criador cedo demais, cedo demais...
Com os outros dois homens, ele deu o empurrão final no caixão, que se inclinou e caiu no oceano.
O cúter adernou, corrigindo a perda de peso, uma rajada de vento atingiu o casco exposto, inclinando-o ainda mais. A amurada de bombordo alcançou o mar. Todos se seguraram, menos o contramestre e o foguista, que acompanharam o movimento. Angelique, fraca de tanto chorar, não conseguiu mais se segurar e escorregou. Já estava quase caindo ao mar quando Jamie a agarrou, puxando-a de volta, frenético, se segurando num apoio com a outra mão. O vento arrancou seu chapéu e o véu. O foguista, as pernas fortes de marujo, deslizou ao seu encontro, levantou-a, arrastou-a para a segurança da cabine, cambaleando por trás dela.
A temperatura caiu. A chuva começou. A tempestade desabou sobre o cúter. Jamie gritou:
— Contramestre, vamos voltar!
— Melhor ficar aí embaixo, senhor!
O contramestre já decidira o que fazer e como fazer. Esperou até que o foguista, soltando imprecações silenciosas, descesse pela escotilha para a casa de máquinas, fechando-a, e que Jamie, Hoag e Skye se encontrassem sãos e salvos na cabine. A chuva se tornou enviesada. O mar era mais violento.
O contramestre sinalizou “devagar, à frente”, virou o leme para bombordo, atenuando o impacto do vento. A proa desceu numa onda de rebentação. O cúter livrou-se bravamente, a água passando pelo convés para bater no vidro da cabine e casa do leme. Continuou a fazer a volta, enquanto o contramestre murmurava, com o cachimbo apertado na boca:
— Calma aí. Somos amigos, pelo amor de Deus, apenas viemos lhe entregar o neto do Demônio de Olhos Verdes.