Não foi fácil fazer a volta. As ondas empurradas pelo vento adernavam o cúter, e por mais que tentasse corrigir a posição, não lhe davam trégua, e arrastavam-no para mais longe ainda. Na cabine, os quatro se seguravam da melhor forma que podiam, qualquer coisa solta caindo. Angelique tornou a perder o equilíbrio, mas os outros a seguraram. No momento, ninguém pensava em qualquer outra coisa que não a tempestade. Hoag estava cinzento. Com um gemido cheio de bílis, ele estendeu-se no chão da cabine.

— É apenas a volta! — gritou Jamie, por cima do barulho e do vento, o cúter serpenteando, Angelique comprimindo a cabeça contra seu ombro, apavorada. — Já vai melhorar!

Ele constatou que o mar estava ruim, mas não agitado demais. Ainda não. Além disso, tinha confiança absoluta no contramestre e na embarcação... desde que o motor continuasse a fornecer potência.

— Não se preocupem!

O contramestre também já chegara a essa conclusão e decidira cair para sotavento, com bastante tempo para isso, se fosse necessário, e fazer a volta contra o vento, lançar uma âncora de tempestade — um balde na extremidade de uma corda, para manter a proa a favor do vento — e agüentar firme.

— Se ele resistir, vamos escapar — murmurou o contramestre, lutando com O leme contra a pressão das ondas.

O cúter completou a volta e se aprumou. A proa mergulhou, enquanto a onda seguinte passava, acelerada pelo vento, depois a embarcação subiu, vertiginosamente, alcançou a crista, e caiu no cavado. Todos a bordo estremeceram. Outra vez a mesma coisa, outra vez a descida estonteante, com muita água a bordo agora. Escendo e descendo, depois subindo e subindo, cada vez mais alto, a queda, a água espumante passando pelas janelas, cobrindo o convés. Angelique deixou escapar um pequeno gemido. Jamie tinha um braço em torno dela, a outra mão gurava uma alça. A chuva batia nas janelas da popa e na porta. Encolhido num canto Skye mantinha a cabeça baixa, vomitando. Hoag, estendido de bruços, também se encontrava desamparado.

Lá em cima, na casa do leme, o contramestre balançava de um lado para o outro, equilibrando-se no convés inclinado com alguma facilidade. A chuva e os borrifos eram intensos nas janelas, mas ele podia ver o suficiente e não permitia que as ondas atingissem o cúter diretamente pela popa, virando-o um pouco, a fim de que as subidas e descidas não acompanhassem toda a força do mar, fazendo-deslizar ao máximo possível... o que era terrível para os passageiros, “mas eles estão sãos e salvos, não é?” Ele estava radiante, divertindo-se, já vencera muita tempestades, haveria tempo suficiente para sentir medo quando estivesse em terra diante de um fogo alegre, tomando dois ou três grogues quentes, daqui a uma ou duas horas. Feliz, ele retomou seu canto jovial. E, de repente, seu coração pulou uma batida.

— Deus Todo-Poderoso! — exclamou ele.

O caixão se encontrava a boreste, ainda flutuando, na superfície, subindo e descendo com o cúter, as duas bandeiras ainda presas. Da cabine, Jamie também viu e compreendeu, igualmente chocado, que se uma onda grande alterasse o curso poderia jogar o caixão de volta a bordo, ou pior ainda, usá-lo como um aríete contra a frágil superestrutura, ou talvez, o pior de tudo, abrir um buraco no casco desprotegido.

Quanto mais o contramestre procurava se desviar, mais o caixão se aproximava. Chegou a bater no lado, depois se afastou, girando como uma piorra, mas permanecendo paralelo. Jamie praguejou por não ter se lembrado de aumentar o peso com uma corrente de âncora; o ar ou a flutuabilidade da madeira mantinha-o à tona.

Era difícil para Jamie observar, ao mesmo tempo em que amparava Angelique. Mas sentiu-se contente por ela estar com a cabeça comprimida contra o ombro de sua sobrecasaca. Ele tornou a virar o pescoço e avistou o caixão de novo, agora um pouco além da popa, boiando na água, dando a impressão de ser a embarcação macabra de uma mente doentia. O vento ou uma correnteza virou-o e agora, paralelo às ondas, começou a rolar, mas logo se endireitou, permaneceu estável por três ou quatro ondas, até que outra o virou e afundou-o, para alegria de Jamie. Ele voltou a respirar, concluindo que desaparecera para sempre, mas logo o caixão aflorou à superfície, a onda espumante seguinte envolveu-o, levantou-o, arremessou-o direto para cima do cúter. Numa reação involuntária, Jamie se abaixou. O caixão não caiu a bordo, apenas bateu de lado contra o casco, soando como se tivessem atingido um recife.

Por um momento, Hoag levantou a cabeça. O cérebro girava em seu crânio, pior do que o barco, e por isso ele nada viu, caiu de volta, gemendo, no miasma do enjoo. Angelique também olhou, mas Jamie a manteve apertada, afagando seus cabelos, para dissipar o medo.

— Apenas fragmentos flutuando, não há com que se preocupar...

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