— Contramestre, sobre o caixão, os outros lá embaixo nada viram. Assim na sua cabeça, você também não viu, e nada dirá a respeito. É um segredo nosso.

— Como quiser, senhor. — O contramestre lhe entregara o frasco. — Obrigado. Se não fosse por sua ação, teríamos afundado, todos nós... junto com ele.

Quase não restava mais nada no frasco, mas ajudara.

— Pensei que nunca conseguiria. Mas vamos esquecer. Um juramento seu. hem?

— Como quiser, senhor. Mas antes de esquecermos, quando o caixão afundou e se rompeu, ele apareceu. Pensei que estava tentando voltar para bordo.

— Deus do céu! — balbuciara Jamie. — Você está imaginando coisas, não vi nada... é apenas sua imaginação.

— Não é, não, senhor. Eu estava mais alto e podia ver melhor, certo? E vi o patife, pedindo seu perdão, vi quando ele voltou à superfície, se debatendo, antes de afundar.

— Está imaginando coisas, pelo amor de Deus! Que coisa horrível para dizer!

— É a verdade de Deus, senhor! Claro que foi apenas por um instante, e o mar espumante o envolvia, mas vi muito bem!

O contramestre cuspira na direção do vento, batera na madeira, e fizera o sinal contra o mau-olhado e o diabo, puxara o lóbulo da orelha para reforçar, antes de acrescentar:

— A verdade de Deus, senhor, e que um raio caia na minha cabeça se estiver mentindo. Fez meus colhões pularem até o reino e voltarem. Juro que ele aflorou à superfície, antes de Davy Jones, o espírito do mar, puxá-lo para o fundo, completamente nu.

— Não diga bobagem! E pare de inventar coisas! — Jamie estremecera, batera também na madeira, por precaução. — Imaginou tudo isso, embora eu seja capaz de jurar por Deus que o maldito caixão parecia ter vontade própria... e maligna ainda por cima!

— O que estou querendo dizer, senhor, é que estava possuído pelo próprio diabo. — O contramestre tornara a cuspir a favor do vento, suando. — Ele se debateu para chegar à superfície, parecia diferente, os olhos abertos e tudo o mais e pensei que vinha nos buscar.

— Pelo amor de Deus, pare com isso! Malcolm jamais haveria de querer que alguma coisa ruim nos acontecesse — garantira Jamie, contrafeito. — Foi apenas sua imaginação.

— Eu estava vendo tudo de cima, senhor...

— Esqueça o que pensa que viu! Tem mais algum rum?

O contramestre tossira, inclinara-se, abrira um armário escondido, tirara outro frasco. Estava pela metade. Jamie tomara um gole grande, engasgara, tomara outro.

— Haverá dez caixas de rum para você pegar em nosso armazém, contramestre, com os meus agradecimentos. Fez um bom trabalho, assim como o foguista... quatro caixas para ele.

O contramestre agradecera, efusivo. O calor do rum no estômago de Jamie prevalecera sobre o frio. Fitara o rosto curtido, os astutos olhos azuis.

— Nunca fiquei tão apavorado em toda a minha vida. Pensei que ia morrer umas três ou quatro vezes.

— Não eu, senhor. — O contramestre sorrira. — Não com o senhor a bordo. Mas confesso que fiquei feliz quando o patife e seu caixão afundaram, nos amaldiçoando até o fundo...

Agora, apesar de são e salvo em terra, Jamie estremeceu, pensando nisso. Angelique disse:

— Você deve tirar essas roupas molhadas.

— Já estou indo — anunciou Hoag.

Angelique abraçou-o, beijou-o no rosto, fechando as narinas ao cheiro de vômito.

— Muito obrigada. Até amanhã.

Ela fez a mesma coisa com Skye. Os dois se afastaram, em passos trôpegos.

— Eles ficarão bem?

— Não têm nada que uns poucos uísques e uma noite de sono não possam curar — respondeu Jamie.

— Mas não estão em condições de discutir qualquer coisa, não é?

— Não. O que você quer discutir?

Angelique passou o braço pelo dele.

— Apenas decidir sobre amanhã.

— Podemos conversar enquanto andamos.

Despediram-se do contramestre e do foguista, ambos agradecendo de novo pelo rum. Foram andando de braços dados.

— Angelique... antes de você dizer qualquer coisa, quero que saiba que me sinto contente pelo que fizemos.

— Eu também, meu caro Jamie. Você é maravilhoso e me sinto contente e feliz por nada ter saído errado, ninguém ter se machucado. — Um tênue sorriso. — Apenas um pouco de enjoo.

— Não há com que se preocupar. E amanhã?

— Decidi não seguir no navio de correspondência... não, por favor, não diga nada, já decidi. Estou mais segura aqui. Até receber notícias de Tess formalmente.

É verdade, Jamie, estou mesmo mais segura aqui. E tenho certeza que Hoag e George concordariam que seria mais sensato, por motivos médicos. E acho que você também não deve ir.

— É meu dever contar tudo, Sra. Struan... à Sra. Tess Struan.

— Pode me chamar de Angelique. Afinal, sempre me tratou assim, e sou Sra. Struan há bem pouco tempo. — Ela suspirou, continuou a andar na direção do prédio da Struan. — É melhor eu ficar. Ela terá de declarar quais são as suas intenções e é melhor que seja por uma carta despachada para cá. Malcolm foi sepultado no mar e isso era tudo o que eu queria. Precisa mesmo ir?

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