— Com este vento — disse Jamie, pensando em voz alta — o Prancing Cloud pode desenvolver de quinze a dezessete nós e chegar a Hong Kong em cinco dias e ela ficará muito ocupada com uma notícia tão importante, a carga ainda mais importante.

Todos haviam concordado que em público — e agora também em particular — considerariam que o caixão continha o corpo do tai-pan.

— O navio de correspondência só conseguirá uma média de oito nós — continuou Jamie —, e assim só chegará no prazo habitual, dez dias e pouco. Quando atracar, o funeral já terá sido realizado, Tess saberá de tudo, de dezenas de pontos de vista diferentes... meu relatório está a bordo, assim como o de Sir William, e dezenas de outros, com toda certeza. Ela me dispensou ao final do mês, o novo homem chega dentro de poucos dias, e fui instruído a lhe mostrar tudo.

Havia ainda os motivos, que ele decidira não enunciar em voz alta. Deveria procurar outras hongs — como as grandes companhias eram às vezes chamadas —, em busca de um emprego. Mas o único emprego disponível, à altura de sua experiência, seria na Brock and Sons e certamente ele receberia uma oferta. Precisava também decidir sobre Maureen, e ainda tinha de pensar em Nemi. Jamie sorriu para Angelique, desolado.

— No final das contas, também não tenho nenhuma razão para ir, não é mesmo?

Ela aconchegou-se contra seu passo, indiferente aos que passavam.

— Fico contente por isso. Não vou me sentir tão sozinha se você ficar aqui.

— Jamie! — chamou Phillip Tyrer, da porta da legação britânica, pondo apressado a sobrecasaca e o chapéu, e se adiantando. — Boa noite, Angelique, Jamie. Sir William apresenta seus cumprimentos e pede que vocês dois... e os outros passageiros e tripulantes do cúter... façam a gentileza de procurá-lo amanha de manhã, antes da igreja, e antes de embarcarem no navio de correspondência. Deve zarpar às duas horas.

— Com que propósito, Phillip? — perguntou Jamie.

— Acho... acho que ele gostaria... merda! Desculpe, Angelique. É óbvio que ele deseja perguntar o que vocês estavam fazendo.

— Fazendo?

Tyrer suspirou.

— Desculpe, meu velho, mas a idéia não é minha. Estão metidos numa encrenca, apenas transmiti a mensagem, mais nada. Não se zanguem comigo. Sou apenas o mensageiro mais próximo.

Angelique e Jamie riram, a tensão se dissipando.

— Dez horas?

— Obrigado, Jamie. Deve ser tempo suficiente. — Tyrer olhou para o cúter. — Parece que vocês tiveram uma travessia difícil. O que aconteceu com a proa?

Jamie olhou para trás. Os danos eram claramente visíveis à luz do lampião no cais, e ele compreendeu que poderiam ser percebidos sem qualquer dificuldade das janelas da legação, por meio de um binóculo.

— Um caixote... ou o que parecia um caixote... foi jogado para bordo, e depois levado de volta pelas ondas. Não chegou a criar maiores problemas.

50

Domingo, 14 de dezembro:

Não concordo, Jamie. é evidente que temos um problema. — Sir William sentava atrás de sua mesa, fitando-os, com Phillip ao lado. O clima na sala insípida era inquisitorial. — Vamos começar de novo. Como parece ser o porta-voz, vou me dirigir a você. Eu disse expressamente que não haveria funeral aqui, o corpo seria enviado para Hong Kong, e...

— E já partiu, Sir William, no Prancing Cloud — repetiu Jamie, o queixo empinado.

Discutiam há meia hora, ele e Sir William, os outros respondendo cautelosos, todos instruídos por Jamie e Skye a só falarem quando interrogados diretamente, e mesmo assim não oferecerem qualquer informação voluntária, apenas responderem ao que fosse indagado, da maneira mais simples possível: Hoag, Skye, o contramestre, o foguista, Angelique. Hoag era sem dúvida o elo mais fraco na corrente e, por duas vezes, quase revelara o motivo. Angelique usava um véu, vestido preto, pronta para ir à igreja.

— Fizemos um funeral simulado.

— Sei disso, e já perguntei, várias vezes, se era apenas simbólico, por que usar um caixão de verdade, com um cadáver de verdade, embora de um nativo, e jogá-lo pela amurada com uma cerimônia de sepultamento cristão no mar?

Jamie deu de ombros, embatucado com aquela pergunta inevitável. Naquela manhã, Skye lhe dissera:

— É melhor ignorar a questão, exibir a maior desfaçatez, manter a maior discrição, pois não há muito que ele possa fazer, a não ser cuspir fogo.

Agora, Jamie murmurou:

— O caixão estava ali e achei que seria uma boa idéia.

— Ah, quer dizer que foi tudo idéia sua?

— Foi, sim — respondeu Jamie, lançando um olhar furioso para Hoag, que já começava a abrir a boca. — Fiz a sugestão, e os outros apenas concordaram. Era o desejo do tai-pan... o desejo de Malcolm e da Sra. Struan. Não havia mal nenhum.

— Pois eu discordo. Toda a idéia é macabra, foram deliberadamente contra a minha decisão. Parece haver um espantoso colapso do pensamento racional e um desejo de todas as pessoas reunidas aqui para evitar me contar a verdade, a explicação simples, um conluio para ocultar... para ocultar o quê? Não concorda, Phillip?

Tyrer teve um sobressalto em sua cadeira.

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