A igreja católica estava iluminada por velas, o altar faiscando, a congregação escassa, e o padre Leo conduzia a litania da missa ao final, sua voz profunda de barítono melodiosa, em meio ao perfume familiar de incenso que envolvia a todos... o serviço mais curto do que o habitual, já que algumas pessoas embarcariam no navio de correspondência.

Angelique ajoelhava-se no primeiro banco, absorvida em oração, Seratard ao seu lado, André alguns bancos atrás, Vervene no fundo, com o resto do pessoal da legação, uns poucos mercadores, eurasianos portugueses, e alguns oficiais e marujos dos navios franceses de licença em terra. A maior parte dos marujos franceses assistia a outras missas, antes ou depois. Não havia padres nos navios, pois considerava-se que trazia má sorte tê-los a bordo, em qualquer navio, de qualquer bandeira.

O padre Leo inclinou-se para o altar, rezou e depois concedeu a bênção à congregação. Angelique respirou fundo, concluiu sua oração sem pressa e esperou que Seratard se levantasse.

Já fizera a confissão. Dissera no confessionário:

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei.

— Que pecados cometeu esta semana, minha criança?

Ela percebera a impaciência maldisfarçada de saber de cada pensamento e ato que havia ocorrido, sendo aquela a primeira vez que se confessava desde o início de seus problemas.

— Esqueci de pedir perdão à Santa Mãe, certa noite, em minhas orações — dissera ela, com absoluta calma, persistindo em seu pacto, no plano e palavras que projetara. — Tive muitos pensamentos e sonhos ruins, senti medo, e esqueci que me encontrava nas mãos de Deus, e assim nada precisava temer.

— E que mais?

Um pequeno sorriso se insinuara no rosto de Angelique, ao constatar que a impaciência aumentara.

— Pequei no meu casamento, embora tenha sido legal aos olhos da gente de meu marido, de sua lei e sua Igreja. Mas não houve tempo para nós celebrarmos o casamento na verdadeira Igreja.

— Mas... mas isso, senhora, não é por si só um pecado, já que não foi responsável pelo que aconteceu, ele nos foi tirado abruptamente. Que outros pecados cometeu?

Ela mantivera as narinas fechadas ao máximo que podia, contra o cheiro de alho, vinho ordinário e roupas sujas, usando um lenço perfumado.

— Pequei por não conseguir persuadir Sir William a permitir que sepultasse meu marido conforme ele desejava e, portanto, eu desejava também.

— Isso... isso por si só não é um pecado, minha criança. O que mais?

— Pequei por não conseguir persuadir meu marido a se tomar católico antes de nos casarmos.

— Isso também não é um pecado, senhora. O que mais?

Ele começara a parecer exasperado. Como Angelique esperava. É estranho que eu não tenha mais medo desse homem e seja capaz de perceber as nuances que ele tenta esconder. Será outra dádiva de Deus?

— Cometeu... cometeu pecados da carne?

Os olhos de Angelique se contraíram, o sorriso congelara, e o desprezara ainda mais, ao mesmo tempo em que o perdoava em parte, por sua magnanimidade em abençoar o outro caixão.

— Tenho sido uma esposa correta, de acordo com os ensinamentos da Igreja.

— Sei disso, mas coabitou com ele, não sendo devi...

— Era devidamente casada de acordo com as leis do meu marido e agi de acordo com os ensinamentos da verdadeira Igreja — insistira ela, para acrescentar num tom um pouco incisivo: — E agora, padre, gostaria que me concedesse à absolvição.

Isso era contrário à prática aceita, e ela esperara, prendendo a respiração pronta para se retirar, se ele tentasse esmiuçar mais fundo contra a prática aceita.

— Como... como vai partir hoje, senhora, é necessário ter certeza, para conceder a absolvição...

— Não vou viajar no navio de correspondência, padre. Não hoje.

— Não vai? — murmurara o padre Leo, deixando que Angelique sentisse a exultação e o alívio. — Neste caso, minha criança, poderemos conversar mais, para a glória de Deus. Ah, como são maravilhosos os caminhos de Deus!

Ele concedera a absolvição, com uma penitência mínima, e Angelique deixara o confessionário para se juntar à congregação.

Gostara muito de superar esse obstáculo. Sua mente vagueava, mas estava normal. Agora podia relaxar, satisfeita consigo mesma. Conseguira tudo o que queria: Malcolm sepultado aqui, como ela desejava, Gornt lançado, Hoag a caminho, Tess neutralizada... com a ajuda de Deus.

Deus está do meu lado, tenho certeza. Ele aprova, tenho certeza. Exceto por Malcolm, ah, Malcolm, Malcolm, meu amor...

— Posso acompanhá-la até em casa, Angelique? — perguntou Seratard, interrompendo seus devaneios.

— Obrigada, monsieur — disse ela, formal —, mas não sou muito boa companhia neste momento e prefiro voltar sozinha.

— Temos muito o que conversar antes de sua partida.

— Oh... pensei que já sabia que não vou mais viajar no navio de correspondência... o Dr. Hoag proibiu, o que muito me entristece.

O sorriso de Seratard se alargou.

— Magnífico! É a melhor notícia que recebi em muitos dias! Gostaria de jantar na legação esta noite, apenas duas ou três pessoas... discretamente?

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