— Minha melhor cartola — murmurou Sir William, irritado, limpando a lama, com uma aparência suspeita de estrume.

O chapéu de Angelique estava intacto. Ela o pôs na cabeça, ajustou o alfinete para prendê-lo melhor.

— Obrigada, George. Cheguei a pensar que meu chapéu daria um mergulho.

— E eu também. Podemos ter a honra de sua companhia no almoço?

— Obrigada, mas não será possível. Ficarei em casa hoje.

Logo chegaram ao portão do prédio da Struan. Os dois homens beijaram sua mão e ela entrou.

— Uma dama adorável, uma companhia agradável — comentou Sir William.

— Concordo.

Babcott franziu o rosto, olhando para o mar. Sir William acompanhou seu olhar atento. Não havia nada de errado na baía, ao que ele pudesse perceber.

— Qual é o problema?

— A regra dela começou.

— Deus Todo-Poderoso! Já a examinou? Ou Hoag? Por que não me contou antes?

— Não a examinamos ainda. Apenas sei, isso é tudo.

— Mas como...

Ele interrompeu a frase quando MacStruan e Dmitri passaram. Murmurou “bom dia, bom dia”, impaciente, depois pegou Babcott pelo braço, e conduziu-o rua abaixo, na direção da legação.

— Como pode saber?

— Ora, sou médico. Estive com ela ontem. Ao vê-la hoje, sem o véu, tornou-se evidente. O rosto estava um pouco inchado e notei que se mostrava um pouco desajeitada quando correu atrás do chapéu.

— Não percebi nada. Tem certeza?

— Não, mas cem guinéus contra um quarto de penny dizem isso.

Sir William franziu o rosto.

— Hoag também saberá só de olhar para ela?

— Não posso garantir.

— Neste caso, não diga a ele.

— E por que não?

— Vamos deixar como uma coisa particular entre nós. É melhor assim. — Uma pausa e Sir William acrescentou, gentilmente: — Vamos deixar que Angelique jogue suas cartas como quiser. É o jogo dela, com Tess Struan, não o nosso. Deixou de ser nosso.

Quatro vigilantes do Bakufu, incluindo um sargento, passaram pelo portão da Yoshiwara. Eram como qualquer outra patrulha de samurais, exceto que os homens eram mais duros, mais brutais e mais alertas. A tarde começava. Apesar do tempo, havia o tradicional desfile de cortesãs, sem pressa, com criadas em sua esteira, de um lado para outro, exibindo seus ornamentos umas para as outras, e para os grupos de gai-jin, olhando boquiabertos, enquanto bebiam nos cafés, rindo quando o vento lançava pelo ar uma ou outra sombrinha decorativa.

De vez em quando, um vigilante abordava o porteiro de uma estalagem, o dono de uma casa de chá ou a criada de um restaurante. No mesmo instante, a pessoa fazia uma reverência, submissa, e balbuciava:

— Não, Sire, o traidor Hiraga não foi visto por aqui, oh, não, Sire, obrigado, Sire, imediatamente, Sire, não, Sire, não o conheço.

Quase todos sabiam onde Hiraga se encontrava, mas preferiam manter sua paz, odiando os vigilantes, e também sabendo que nenhuma recompensa seria bastante grande para impedir a vingança dos shishi ou a repulsa do mundo flutuante por tal traição. Naquele mundo, os segredos eram o condimento e a essência da vida, aumentando o excitamento do dia.

O progresso da patrulha parecia ao acaso. Mas, de repente, o sargento mudou de rumo, entrou na viela da casa das Três Carpas e foi bater com toda força no portão na cerca.

Hiraga ficou acuado. Sempre que havia patrulhas nas proximidades, os vigias alertavam-no a tempo de fugir para o esconderijo subterrâneo, no túnel, onde tinha agora uma cama, velas, fósforos, comida, suas espadas e a pistola, além dos explosivos de Katsumata. Hoje, quando o alarme o alcançou, Hiraga descobriu que outros samurais vasculhavam os jardins, e assim não havia nenhuma possibilidade de chegar ao poço.

Em pânico, ele correu para a área da cozinha e mal teve tempo de assumir um disfarce, ali guardado, um presente de Katsumata, enquanto o sargento, a poucos metros de distância, a vista obstruída por uma sebe, dava um empurrão no porteiro subserviente, tirava suas sandálias e subia para a varanda da casa principal.

Sem saber que Hiraga se encontrava ali perto, Raiko saiu para cumprimentar o sargento, ajoelhou-se, fez uma reverência, seu rosto um charme só, as entranhas palpitando, pois aquele era o terceiro dia de buscas... um exagero que não permitia qualquer sossego.

— Boa tarde, Sire. Sinto muito, mas as damas estão descansando, ainda não se prepararam para receber os clientes.

— Desejo revistar a casa.

— Com todo prazer. Por favor, acompanhe-me.

— Vamos para a cozinha.

— Cozinha? Por favor, acompanhe-me.

Raiko seguiu na frente, afável. Ao deparar com Hiraga na cozinha, de cabeça baixa, entre a dúzia de pessoal da cozinha, seus joelhos quase vergaram.

Hiraga estava imundo, a cabeça coberta pela peruca emaranhada que Katsumata usara em Hodogaya, trajando apenas uma sunga suja e uma camiseta rasgada.

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