Então por que aumentar seu risco, permitindo os shishi aqui?, perguntou-se ela. Em particular Katsumata, que é agora o primeiro dos inimigos de Yoshi. O que isso importa? Deve haver o mau com o bom, o mau deve ser enfrentado e o bom desfrutado. Fora emocionante ser parte dos shishi, com sua bravura e sonno-joi, a luta pela libertação do jugo de séculos, sacrificando suas vidas pelo imperador, na busca tão trágica e desesperançada, todos jovens e valentes, nascidos para fracassar, o que é muito triste. E se eles vencessem, aqueles que reinassem em seguida nos libertariam do jugo de séculos?

Não. Nunca. Não a nós, as mulheres. Continuaremos onde estamos agora, sob o domínio do yang.

Seus olhos vislumbraram uma nesga da lua surgindo de uma nuvem avermelhada pelo pôr-do-sol, por um instante incomparável, para ser tragada de novo, o vermelho se tornando marrom, depois ouro, as flamas escurecendo... um momento viva, no seguinte morta.

— Lindo, neh?

— É, sim, Katsumata-san, tão triste, tão bonito... Ah, já trouxeram o chá! Lamento que esteja nos deixando.

— Voltarei em poucos dias. Tem mais alguma notícia de Raiko? Qualque informação adicional sobre os gai-jin e seus planos?

Meikin serviu-lhe o chá, fazendo uma pausa para admirar as xícaras magníficas.

— Parece que lorde Yoshi teve um encontro com o líder gai-jin, para fazer um pacto de amizade.

Ela relatou as informações de Furansu-san, sussurradas pelo enviado de Raiko poucas noites antes, e que não revelara a Katsumata até aquele momento.

— Além disso, o doutor gai-jin de Kanagawa examinou secretamente o tairo aqui em Iedo, no mesmo dia, dando-lhe medicamentos gai-jin... e soube que ele melhorou.

Baka — resmungou Katsumata, repugnado.

— Tem razão. Esse doutor deve ser detido. A fonte de Raiko diz que ele volta amanhã, ou no dia seguinte, para ver o tairo de novo.

So ka? — O interesse de Katsumata dobrou. — Onde? No castelo? Ela sacudiu a cabeça.

— Não. Esta é a melhor parte. Fora das muralhas, no palácio de Zukumura, o idiota, como na última vez.

Katsumata franziu o rosto.

— Muitas opções, Meikin, opções excepcionais. Igual a Utani, neh? Tentação demais. A morte de Utani ainda ressoa por todo o Nipão! Hiraga? Ele já foi apanhado?

— Não. O chefe gai-jin deixou Akimoto partir e Takeda também continua seguro. — Raiko observou-o por um momento, especulando sobre o que ele estaria pensando e depois acrescentou, suavemente: — Há mais dois fatos que deve saber. Lorde Yoshi esteve no encontro do doutor com o tairo, também com apenas uns poucos guardas. Ouvi dizer que ele estará presente de novo.

Ela viu os olhos de Katsumata faiscarem e experimentou um repentino medo, sentindo sua violência contida.

— Yoshi e Anjo juntos, aqueles cães fora das muralhas juntos? Puxa, Meikin, mas isso é incrível! — Katsumata tremia de excitamento. — Pode descobrir quando exatamente o doutor chega?

Meikin inclinou-se para a frente, quase tonta de esperança, e murmurou:

— Outro mensageiro é esperado esta noite. Saberei então. Raiko deve compreender como poderia ser uma oportunidade vital para nós, para todos nós, para todos os que têm contas a acertar.

E era mesmo uma oportunidade como nunca surgira antes, se viesse a se concretizar. Katsumata contraiu os olhos.

— Não posso esperar aqui, nem voltar esta noite. Quando foi o outro encontro, em que momento do dia?

— Cedo.

A carranca se aprofundou, depois se dissolveu.

— Meikin, todos os shishi lhe agradecerão. Se o encontro for amanhã, mande-me o aviso da hora imediatamente, para a estalagem dos Céus Azuis, perto da ponte em Nihonbashi.

Ele fez uma reverência, Meikin retribuiu, ambos satisfeitos, por enquanto.

A ponte em Nihonbashi era considerada a primeira etapa da Tokaidô, nos arredores de Iedo, e a estalagem dos Céus Azuis uma entre dezenas, ricas e pobres, espalhadas por todo o distrito. Aquela noite era escura e fria, o céu coberto por sólida camada de nuvens, ainda faltavam horas para a meia-noite. A estalagem ficava numa viela pequena e suja, um dos estabelecimentos mais pobres, um prédio indefinido, de dois andares, quase em ruínas, com as latrinas, cozinhas e uns poucos bangalôs separados de um só cômodo nos jardins, por trás dos muros. Katsumata sentava na varanda de um desses bangalôs, meditando, com uma túnica acolchoada contra o frio, desfrutando o jardim, a única coisa por ali a que se dispensavam cuidados mais meticulosos.

Lanternas coloridas em meio a plantas viçosas, ao longo de um regato, uma ponte, o som suave e tranquilizador da água correndo, o ruído ressonante da caçamba de bambu caindo contra a pedra, ao se encher de água, para se esvaziar, subir, cair de novo, enquanto a água escorresse pela cachoeira em miniatura. Seu silencioso guarda shishi parou por um instante, gesticulou que estava tudo bem e prosseguiu em sua ronda pelo terreno da estalagem.

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