Era a decisão dela e isso era maravilhoso! Angelique aceitaria o veredito DELA. A vontade de Deus. E fora o que fizera.

Impulsiva, Angelique ajoelhou-se ao lado da cama, fechou os olhos, pediu a sua bênção, expressou seus fervorosos agradecimentos, e outra vez disse que sentia muito, mas agradecia pela remoção do fardo, Sua vontade será feita. Depois, tornou a se meter sob as cobertas, pronta para o café e o mundo. O café naquele momento, nove horas, era um costume aos domingos, mal tinha tempo suficiente para tomar um banho, se vestir e ir à igreja.

Igreja! Por que não?, pensou ela, devo apresentar meus agradecimentos, mas sem confissão.

— Ah Soh, traga meu banho e...

Ah Soh a fitava aturdida, os olhos vidrados. Abruptamente, ela compreendeu que a criada devia ter visto manchas de sangue na parte de trás da camisola. Ah Soh apressou-se em dizer:

— Buscar banho.

Ela se encaminhou para a porta, mas Angelique chegou lá na sua frente e empurrou-a de volta.

— Se contar a alguém, arrancarei seus olhos!

— Não compreender, miss tai-tai — balbuciou Ah Soh, apavorada com o veneno no rosto e na voz de Angelique. — Não compreender!

— Ah, sim, claro que compreende! Dew neh loh moh-ah.

Angelique disse a imprecação em cantonês como ouvira Malcolm pronunciá-la uma ocasião, quando ficara furioso com Chen, que empalidecera ao ouvir. Ele nunca lhe dissera o que as palavras significavam, mas causaram o mesmo efeito em Ah Soh, cujas pernas quase cederam.

— Aiiiii!

— Se você falar, Ah Soh, tai-tai vai... — Furiosa, Angelique esticou as unhas compridas a um milímetro dos olhos da criada chinesa e manteve-as ali. — Tai-tai fazer isto! Compreender?

— Compreender! Segredo, tai-tai! — A assustada criada balbuciou alguma coisa em cantonês, levou os dedos aos lábios, imitando um grampo. — Ah Soh não falar! Ah Soh compreender!

Controlando sua fúria, embora o coração ainda estivesse disparado, Angelique empurrou a mulher em direção à cama e tornou a se deitar. Autoritária, apontou para a xícara de café.

Dew neh loh moh! Sirva meu café!

Cheia de humildade e medo genuíno, Ah Soh serviu o café, entregou a xícara e ali ficou parada, submissa.

— Não fale nada, arrume a cama, limpe as roupas! Segredo!

— Compreender, tai-tai, não falar, segredo, compreender.

— Não fale nada! Ou... — As unhas de Angelique cortaram o ar. —O banho! Ah Soh retirou-se apressada para buscar a água quente, mas antes, ofegante foi sussurrar a notícia para Chen, que revirou os olhos para o céu, e disse:

— Ah, o que tai-tai Tess vai fazer agora?

Depois, Chen saiu correndo, a fim de enviar a notícia pelo navio mais veloz para o ilustre compradore Chen, que lhes ordenara que o informassem de imediato, qualquer que fosse o custo.

O café estava delicioso. Acalmou o estômago e o espírito de Angelique, desfez a ligeira intumescência. Uma das autênticas alegrias de Angelique no mundo era o café da manhã, ainda mais com croissants e Colette, nos Champs-Elysées, num dos elegantes cafés com mesinhas na calçada, lendo a última circular da corte e vendo o mundo passar.

Primeiro, a igreja. Fingirei que nada aconteceu, por enquanto... Ah Soh não ousará contar qualquer coisa. A quem dizer primeiro? Hoag? André? Edward? O Sr. Skye?

Já conversara a respeito com Heavenly Skye. Seu conselho fora o de que não tinham opção senão esperar, descobrir o que Hoag faria, e depois o que Tess faria. A carta de Tess para ele fora sucinta: Prezado Sr. Skye: Sei que meu filho tinha negócios com você. Suspenda e desista de todas as ações, de meu filho e minhas. Nada de bom resultará disso.

— Uma escolha interessante das palavras — comentara Skye.

— Você parece assustado, como se já tivéssemos perdido.

— Absolutamente, Angelique. Nossa única posição é a de esperar. A iniciativa cabe a ela.

— Pela próxima correspondência, quero que você escreva para os advogados da Struan, pedindo um relatório sobre o espólio do meu marido.

Era uma idéia sugerida por André, favorável à abertura de uma ofensiva imediata.

— Com prazer, se você quiser cair na armadilha dela.

— Como assim?

— Sua única postura é a de criança-viúva magoada e injuriada, atraída a um casamento prematuro por um homem de vontade forte... não a viúva pobre e gananciosa de um marido rico e pródigo, que se pôs contra os desejos da mãe ao casar com uma mulher pobre, de antecedentes questionáveis... por favor, não se zangue, só estou lhe dizendo o que pode e provavelmente será dito. Deve esperar, minha cara, torcendo para que Tess se comporte como um ser humano deveria. Se a criança de Malcolm... hum... está a caminho, isso seria uma grande ajuda.

— E se não estiver?

— Vamos considerar essa possibilidade quando acontecer... isto é, quando não acontecer. Haverá muito tempo para...

— Não tenho muito tempo. Meu dinheiro vai acabar.

— Seja paciente...

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