Hoag! Se continuasse no mesmo ritmo, acabaria por alcançá-la. Poderia evitá-lo se trotasse o cavalo; seria ainda mais fácil voltar para casa.

— Bom dia, monsieur le docteur. Como tem passado?

— Olá, Angelique. Você está com uma ótima aparência.

— Não estou, não. Sinto o maior mal-estar. De qualquer forma, obrigada. — Uma ligeira hesitação e ela acrescentou, casual: — Uma mulher nunca se sente bem durante esse período do mês.

Surpreso, Hoag puxou as rédeas. Sua égua levantou a cabeça, relinchou, assustando a montaria de Angelique. Os dois logo recuperaram o controle dos animais.

— Desculpe — disse ele, a voz rouca. — Eu... esperava o oposto.

A manifestação súbita e indiferente deixaram-no tão aturdido que ele quase disse: Tem certeza? Devo estar ficando velho, pensou Hoag, irritado consigo por não ter percebido o óbvio... o óbvio agora que sabia.

— Bom, pelo menos você já sabe.

— Sinto um terrível desapontamento, por Malcolm, mas de certa forma parece que não... me atormenta mais. Chorei muito, é claro, mas agora...

O ar inocente de Angelique fez com que ele tivesse vontade de abraçá-la, confortá-la.

— Com todo o resto, Angelique, isso é compreensível. Talvez seja melhor assim. Eu lhe disse antes: enquanto for capaz de chorar, nada poderá afetá-la para sempre. Posso perguntar quando começou?

Mais toques de corneta vieram do penhasco.

— O que está acontecendo? Vi Settry e outros oficiais partirem a galope.

— As cornetas estão apenas chamando os oficiais de volta ao acampamento, rotina, não há com que se preocupar. — Hoag olhou ao redor, para se certificar de que não havia ninguém por perto, depois soltou uma risada nervosa. — Obrigado por me avisar, embora de uma forma um tanto abrupta. Podemos conversar enquanto cavalgamos?

— Claro.— Angelique sabia muito bem por que lhe contara. Por ter visto Gornt hoje e pela chegada conveniente de Hoag. E também porque queria que a luta fosse logo iniciada. — Começou no domingo.

— Não sei o que dizer, se deve se considerar afortunada ou desafortunada. — Nenhuma das duas coisas. Foi a vontade de Deus e aceito-a. Lamento por Malcolm, não por mim. Para mim, é a vontade de Deus. O que vai fazer agora? Informá-la?

— Isso mesmo, mas primeiro tenho de lhe entregar uma carta. Foi a vez de Angelique ficar surpresa.

— Tinha uma carta durante todo esse tempo e não a entregou?

— Ela me pediu para só entregar se você não estivesse esperando uma criança de Malcolm.

— Hum... — Angelique pensou a respeito por um momento, sentindo-se um pouco nauseada. — E se eu estivesse grávida?

— Trata-se de uma pergunta hipotética agora, não é mesmo?

Hoag falou gentilmente, preocupado com a súbita palidez de Angelique. Essa moça ainda não se livrou da depressão, nem de longe.

— Quero saber.

— Ela me pediu para lhe entregar a carta, Angelique, se sua menstruação começasse. Gostaria de voltar agora? Levarei a carta à sua suíte.

— Obrigada, mas... esperarei enquanto você a pega, diante do prédio da Struan.

Ela esporeou a montaria, completou o circuito, indiferente aos outros... todos a observando. Num súbito impulso, virou para pegar o caminho num galope curto, a fim de desanuviar a cabeça do medo. Esporas, joelhos e mãos espicaçando e controlando o pônei.

À frente, podia divisar as torres das duas igrejas, a cerca do perímetro, a Yoshiwara, a ponte e a casa da guarda. Por um momento, sua mente voltou no tempo e foi como se estivesse na direção de tudo aquilo, dominada pelo pânico, a sangrenta Tokaidô para trás, sem o chapéu, as roupas rasgadas, quase morta de medo. A visão se dissipou quando puxou as rédeas... os acontecimentos pareciam muito distantes. Um tipo diferente de medo persistia. A sorte estava lançada.

A carta de Tess dizia:

Tenho certeza de que você vai concordar que não há necessidade de cortesias, que não têm o menor sentido entre nós.

Estou contente por saber que você não espera uma criança de meu filho. Isso torna o futuro mais simples, menos complicado. Não aceito ou reconheço o “casamento” ou que você tenha quaisquer pretensões legais em relação a ele... muito ao contrário.

No momento em que estiver lendo esta carta, a Casa Nobre já terá iniciado uma nova era ou se encontrará à beira da bancarrota. Se for a primeira coisa, será em grande parte uma decorrência de você ter me encaminhado aquela pessoa.

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