Sem medo, ela fitou-o nos olhos; não conhecera muitos olhos tão implacáveis assim, mas preferiu descartar isso, optando por considerá-lo apenas como um homem, um de mil clientes e autoridades que tivera de suportar ao longo de sua vida, por dinheiro ou favores, para si mesma ou sua casa.
— É tempo de seguir adiante, Sire. — Meikin enfiou a mão em sua manga, tirou um pequeno frasco. — Posso fazê-lo aqui, se assim desejar, meu poema de morte já foi escrito, a Gyokoyama possui a casa da Glicínia. Mas pertenço ao mundo flutuante — acrescentou ela, orgulhosa. — Não é correto partir maculada, com um sangue impuro nas roupas e nas mãos. Gostaria de partir limpa. Gostaria de voltar para a minha casa. Um desejo de morte, Sire: um banho e roupas limpas. Por favor?
56
IOCOAMA
Terça-feira, 13 de janeiro:
Angellque se encontrava entre os cavaleiros que exercitavam seus pôneis à primeira claridade da manhã, na pista de corrida em Iocoama, galopando sozinha, por opção, mal notando os outros. Havia bastante gente no circuito e todos a observavam. Havia muito dinheiro acompanhando-a naquela manhã. Ela estava atrasada. Pelo menos um dia.
— Edward, ela está, não é? — perguntou Pallidar, cavalgando ao lado de Gornt, no outro lado da pista. — Ahn... atrasada?
— Sim, senhor, é o que indicam todos os cálculos.
Gornt contemplou-a, ponderando sobre o que faria agora. Ela montava o pônei preto que Malcolm lhe dera, usava um traje de montaria preto, elegante, botas pretas, um chapéu com meio véu.
— Seu alfaiate é muito bom, as roupas assentam com perfeição — comentou ele. — Nunca tinha visto esse traje antes.
— E não se pode deixar de reconhecer que ela também tem um assento muito bom — disse Pallidar, secamente.
Os dois riram.
— Mas ela cavalga como um sonho, não resta a menor dúvida quanto a isso, deslumbrante como qualquer beldade sulista.
— Falando sério, o que você acha? Há todos os tipos de rumores circulando sobre datas, não muitos de nós jamais tiveram... não muitos de nós sabem sobre o incômodo, os intervalos, essas coisas. Tem algum dinheiro apostado?
Tanto que você nem acreditaria, pensou Gornt.
— Perguntei ontem a Hoag, à queima-roupa.
— Por Deus, assim de repente? Eu nunca teria coragem, meu velho — Pallidar inclinou-se para mais perto, montado num castrado castanho dos dragões muito maior que o pônei de Gornt. — O que ele disse?
— Respondeu que não sabe mais do que nós. E, conhecendo-o, acredito
Gornt disfarçava sua impaciência por perder a companhia de Angelique. Haviam combinado que simulariam evitar um ao outro, até que ela tivesse certeza se estava ou não grávida. Nada poderia ser feito antes disso... ou até o segundo mês.
— O dia certo seria 11 ou 12, mas Hoag explicou que poderia atrasar, mas não muito, demorar um pouco para... começar. Se não vier, é que ela está esperando.
— Faz a gente pensar, hem? Difícil para ela se estiver, a pobre coitada, mais do que difícil, quando a gente se lembra de Hong Kong, Tess e todos os problemas. Pior ainda se não estiver, a se acreditar nos rumores... não sei qual seria o mais terrível.
Cornetas começaram a soar no penhasco por cima da pista, onde ficava o acampamento dos soldados; havia mil soldados ali.
— Droga! — murmurou Pallidar.
— O que é?
— Um toque de “retorno à base”. O general deve estar de ressaca e quer rosnar para todo mundo.
— Vai com Sir William amanhã?
— À conferência com Yoshi em Kanagawa? Acho que sim. Sempre me mandam para essas coisas. É melhor eu ir logo. Vamos jantar juntos?
— Seria um prazer.
Gornt observou Pallidar fazer uma volta impecável com o cavalo e partir a galope, misturando-se aos outros oficiais, que seguiam na mesma direção. Notou que Hoag vinha da colônia para o circuito. O médico montava bem, confortável na sela para um homem tão volumoso. Decidindo interceptá-lo, Gornt esporeou seu pônei — um garanhão castanho, o melhor no estábulo da Brock — para meio trote, mas depois mudou de idéia. Já cavalgara o suficiente hoje. E muito em breve teriam notícias, pois Hoag nunca seria capaz de guardar um segredo para si mesmo. Antes de deixar a pista, ele acenou para Angelique e gritou:
— Bom dia,
— Ahn... Obrigada, Sr. Gornt.
Ele percebeu sua melancolia, mas Angelique sorriu-lhe. Tranquilizado, Gornt se afastou a trote. Não havia necessidade de pressioná-la. Primeiro, ela está ou não? Qualquer que seja o caso, não é problema para mim.
Angelique ficara satisfeita ao vê-lo, apreciando sua admiração ostensiva, elegância e virilidade. A tensão da espera, permanecendo sozinha, atendo-se ao regime de luto, reprimindo segredos, começava a transparecer. As únicas distrações que se permitia agora eram os passeios matutinos a cavalo, as caminhadas ocasionais pelo passeio, a leitura de tantos livros quanto podia encontrar, as conversas com Vargas sobre seda e bicho-da-seda, na tentativa de ressuscitar o entusiasmo anterior. E, de repente, ela avistou Hoag.