Deliberadamente, Tyrer abandonara todas as cortesias. O governador ficara vermelho, fizera uma reverência, do tipo reservado a superiores, pedira desculpas mais uma vez e se retirara apressado, consternado porque os gai-jin continuavam ali. Como não podia deixar de ser, todas as pessoas civilizadas, dali até Iedo, haviam visto o incêndio, presumindo que os gai-jin, os que restassem, lamberiam suas queimaduras, embarcariam nos navios, juntando-se ao êxodo, e iriam embora.

Depois que o governador e sua comitiva se retiraram, Sir William sugerira um almoço sem pressa, conduzindo Seratard à sua adega substancial.

— Merecemos uma celebração, Henri. O que gostaria de beber? Tivemos realmente muita sorte ontem à noite... exceto por André, pobre coitado.

— Tem razão. Uma pena. A vontade de Deus. — Seratard franzira o rosto, ainda olhando para os rótulos. — Ah, Montrachet, 51! Duas garrafas?

— Duas no mínimo. George vai nos acompanhar no almoço. Podemos também saborear um Margaux... recomendo o 48, Château Pichon-Longuville... e um Château d’Yquem com o pastelão.

— Perfeito. É uma pena que não tenhamos queijo. Não há a menor possibilidade de Yoshi aparecer agora?

— Se ele vier, não o veremos.

— Na reunião no clube, você disse que teríamos um jantar esta noite. Quer discutir alguma coisa com os outros?

— Isso mesmo. — A adega era fresca e agradável. Havia uns poucos copos no aparador, ao lado das prateleiras. Sir William selecionara meia garrafa de champanhe e começara a abri-la. — Acho que devemos fingir que o incêndio não é o desastre que realmente foi e prosseguir com os nossos planos contra Sanjiro e sua capital, Kagoshima.

— Agora? — Seratard ficara surpreso. — Mas não acha que seria perigoso demais enviar a esquadra num momento em que nos tornamos tão expostos? Não seria uma tentação para eles?

— E muito grande, mas é justamente esse o meu ponto. Minha proposta é enviarmos apenas navios de guerra britânicos, mantendo aqui sua nave capitânia e a dos russos, junto com os navios mercantes armados. Cancelamos o envio de unidades do exército para o desembarque proposto e despachamos apenas os fuzileiros. E nos limitaremos a um bombardeio do mar.

Ele tirara a rolha e servira o champanhe.

— Isso tornará a missão de Ketterer muito mais fácil. Ele jamais gostou da idéia de comandar um desembarque dos navios. Agora, pode ficar a distância na baía e arrasar os japoneses. Saúde.

Os dois homens bateram seus copos, Seratard avaliando a proposta para descobrir os perigos latentes, quaisquer lugares em que seu adversário plantara minas para prejudicar os interesses franceses. Não havia nenhum. Ao contrário, ajudava seu plano a longo prazo de se insinuar na confiança de Yoshi, fazendo-o compreender que os ingleses eram os bárbaros, não os franceses, e que a França, que comparava a si mesmo, merecia toda confiança, sabia ser paciente e via mais longe.

— Uma safra maravilhosa, William. En príncipe, sim, mas eu gostaria de consultar meu almirante.

— Por que não? Depois, faremos o seguinte...

O almoço fora bastante agradável. No momento oportuno, embarcaram no cúter e agora Sir William equilibrava-se com a maior agilidade, enquanto a embarcação era atracada no cais da Brock, uma ocorrência inédita. Avistou Gornt ao lado de alguns baús, junto com um empregado, perto dos degraus do cais.

— Espero que não tenha se incomodado, Sr. Gornt — disse ele. — Requisitei o cúter, que está sob a minha bandeira, não da Struan.

— O prazer é meu, Sir William. Como foi a reunião?

— O sujeito não apareceu. Acho que esperava que nós não comparecêssemos.

— Ele perdeu prestígio com isso, daqui até Timbuctu.

— Concordo. — O que fora a sua idéia, pensou Sir William, com um sorriso secreto, enquanto apontava para as malas. — Não vai embora, não é?

— Claro que não, senhor. Mas viajarei até Hong Kong, pelo paquete que zarpa esta noite, a fim de providenciar material de construção para nós e para os outros.

— Boa idéia. Desejo uma viagem segura e rápido retorno.

Sir William ergueu o chapéu e afastou-se em seguida, junto com Seratard. Tyrer, doente de cansaço, cambaleou atrás deles, mal reconhecendo Gornt.

— Leve estes baús para bordo, Pereira — ordenou Gornt. — Avise ao capitão que embarcarei dentro do horário. Olá, doutor.

Hoag aproximou-se, acompanhado por alguns cules, carregando um baú de viagem marítima e várias malas.

— Olá, Edward. Soube que você também vai viajar no Atlanta Belle. — Hoag estava sem fôlego, aflito, as roupas e as mãos manchadas de sangue e sujas, os olhos injetados. — Posso pedir a seu pessoal para levar minha bagagem para bordo? Ainda tenho uma dúzia ou mais de braços e pernas para encanar, várias queimaduras... muito obrigado.

Ele se afastou apressado, sem esperar por uma resposta.

— Leve isso para bordo também, Pereira.

Gornt franziu o rosto e se perguntou: por que Hoag está com tanta pressa em partir?

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