Angelique respirou fundo, olhou pela janela, e esperou que a pontada de angústia passasse. Não deve se abrir, reiterou para si mesma, quase em lágrimas. Nem mesmo com Colette. Seja forte, Angelique. Tome cuidado. Sua vida mudou, tudo mudou... mas apenas por pouco tempo. Não deixe que ninguém a pegue desprevenida.
Outra vez ela respirou fundo. A carta seguinte a chocou. Tia Emma dava a notícia terrível da queda de seu marido:
Pobre e querido tio Michel, pensou ela, chorando em silêncio, uma pena que ele fosse tão mau administrador.
— Não importa, minhaquerida tia Emama — disse ela, em voz alta, dominada por uma súbita alegria. — Agora posso retribuir todas as suas gentilezas. Pedirei a Malcolm para ajudar, e tenho certeza que ele vai...
Espere! Isso seria sensato?
Enquanto ponderava a respeito, Angelique abriu a carta do pai. Para sua surpresa, o envelope continha apenas uma carta, sem a esperada ordem de pagamento que ela pedira, sobre o dinheiro que trouxera de Paris, e depositara no Victoria Bank, o dinheiro que o tio lhe adiantara com extrema generosidade... e sob a promessa solene de que não contaria nada à sua esposa, e de que o pai pagaria o empréstimo no instante em que ela chegasse a Hong Kong, o que ele lhe dissera que fizera.
Os olhos de Angelique não conseguiram mais ler, um turbilhão invadiu o cérebro. Oh, Deus! Que oportunidade de negócios? Será que ele está jogando tudo o que tenho no mundo?
Eram quase duas horas, e McFay sentia-se cansado, o estômago vazio, os pensamentos sombrios. Escrevera uma dúzia de cartas, assinara meia centena de vales, pagara dezenas de contas, conferira os livros do dia anterior, mostrando que os negócios vinham caindo, constatara que todas as mercadorias encomendadas da América haviam sido canceladas, retidas ou oferecidas a preços mais altos, todas as operações com o Canadá e Europa também afetadas, em grau maior ou menor, pela guerra civil americana. Também não havia boas notícias em qualquer dos despachos de Hong Kong... e muitas novidades ruins vinham do escritório em Xangai, embora Albert MacStruan, que controlava tudo ali, estivesse realizando um excelente trabalho. Por Deus, pensou ele, seria uma catástrofe se tivéssemos de evacuar Xangai, com todos os investimentos que fizemos na cidade.