– Se tratam com tal crueza os seus salteadores de estradas – duvidara Melo –, nem quero pensar no que nos farão se souberem da Noiva Roubada, para já não falar no que fizemos, depois do nosso naufrágio na ilha dos Ladrões107, quando fugimos com a lanteia, abandonando os trinta chins na ilha deserta.
– Eram eles ou nós! – protestara Joaquim. – Jazíamos há já quinze dias na maldita ilha, meio mortos de fome, se não fora o cervo que o tigre matou. Pelo menos salvámos o menino que estava no barco.
– O menino – contrapusera Cristóvão –, furtámo-lo à sua gente e pesam-me na consciência as suas lágrimas e rogos para o deixarmos ir a nado para a praia, onde víamos o pai a chorar de aflição. Parece-me ouvir ainda a acusação que nos fez de darmos graças a Deus com as mãos sujas dos nossos crimes! Pelo passado se julga o futuro.
Fernão sentira na boca um gosto amargo de mareio, ao ouvir Melo mencionar a formosíssima Chu Huyen, que eles haviam raptado na baía de Tilaumera, na Cochinchina108. Não logrou suster as lágrimas que lhe correram pelo rosto tão grossas como as de Meireles.
– Em qualquer terra de cristãos, se fossem tomados homens como nós, desconhecidos, mal sabendo a língua e de quem gente grada como o chumbim de Taypor fizesse tão graves acusações, seriam logo justiçados sem sequer serem ouvidos.
Jorge rira-se escarninho:
– É certo, Valentim, que os mandarins grandes da justiça não aceitam peitas. a menos que elas compensem o risco! Quanto aos mais pequenos, sejam oficiais, escrivães, tronqueiros, guardas, vigias ou os algozes que aplicam os castigos, não há um só que não espere que lhe untem as mãos. Se não os tivéssemos peitado com alguns taéis de prata, já teríamos decerto morrido dos açoutes em Taypor, Nanquim ou ainda neste tronco.
Ficaram por momentos em silêncio, recordando os muitos mortos que tinham deixado para trás. As moedas de prata, amaciando os carrascos, haviam contribuído para o milagre de estarem vivos, pois os açoites tinham sido ministrados com menos fereza e em menor quantidade do que a sentença requeria. Ali mesmo, na prisão de Gofanjauserca, o tael que o conchaly lhes dera servira para negociar com o tronqueiro a liberdade de andarem no pátio e na cerca sem canga nem ferros, até à hora de recolher aos bailéus para a primeira contagem da noite feita pelo lauteaa com os seus escrivães.
Os tanigores tinham conseguido a revogação da sentença do tribunal de Nanquim, pelos Doze Conchalys da Mesa do Crime, porém o mandarim arguidor requereu contra os réus, retomando a acusação de corsários e ladrões do mar, a qual foi novamente contestada pelos procuradores da Mesa do Remédio dos Pobres.
Nestas idas e vindas, entre alegações, artigos de contraditório e novas alegações, correram seis meses, uma eternidade para quem vivia com o credo na boca temendo ver surgir algum sobrevivente das abordagens e saques de António de Faria, para os denunciar. Até Jorge Mendes perdeu o seu humor faceto, mantendo-se em melancólico silêncio como os demais companheiros.
A presença dos estranhos folangji, graças decerto às demandas dos tanigores feitas em seu favor, chegara aos ouvidos da gente nobre e rica de Pequim e alguns grandes senhores que nunca tinham visto portugueses, movidos pela curiosidade, usaram de influências, presentes e dinheiro para amiúde os tirarem do tronco, levando-os de visita a suas casas, para os verem e saberem das suas terras e costumes.
Para os cativos, estas saídas eram tomadas como um milagre da Divina Providência que, por serem cristãos devotos, os protegia sempre em terras de gentios pagãos e idólatras, apesar dos seus crimes. Por falarem bem a língua, Fernão, Borralho, Zeimoto, assim como Gaspar que sabia tanger e cantar, eram invariavelmente escolhidos pelos parthianguons e pelos tanigores, tornando-se tal mercê fojo de invejas e ódios da parte dos preteridos. Embora partilhassem com os restantes companheiros a comida e bebida que lhes davam os seus benfeitores, não logravam apaziguá-los nem evitar os seus remoques raivosos e a inimizade tão nociva à sua causa nas presentes circunstâncias. Contudo, se os insultos e a malquerença eram o preço que tinham de pagar pelas horas de prazer que passavam fora da prisão em requintada companhia, os quatro eleitos estavam dispostos a sofrê-los com resignação e boa cara.
Os nobres chins recebiam-nos com as suas mulheres, parentes e outra gente lustrosa, com grandes honras, como se também eles fossem grandes, sentando-os à sua mesa, a comer e a beber, despedindo-os por fim com muitos presentes. A sua curiosidade parecia insaciável e os portugueses esforçavam-se por satisfazer-lha, ajudando-se uns aos outros na busca das palavras para o melhor relato das suas desventuras, cada vez mais fabulosas, pelo contributo da poderosa imaginação de Fernão Mendes, cujo engenho se ia aguçando com a experiência.