A visita do escrivão e a inesperada riqueza que ele lhes trouxera reanimaram-lhes a esperança de que não estaria longe a conclusão do processo, no entanto, passaram mais vinte e um dias sem outra novidade senão o escândalo dos tanigores com a insistência dos réus para que intercedessem junto do chaem para ele lhes dar despacho.

Quando chega a almejada manhã do julgamento, dois chumbins da Justiça – os meirinhos da execução do crime –, acompanhados por vinte upos armados de alabardas e chuços, vêm buscá-los à prisão para os levarem ao tribunal. Lançam-lhes algemas, grilhões nos pés, canga ao pescoço e, amarrando-os todos juntos num feixe, com uma corrente de ferro muito comprida, conduzem-nos aos tropeções para o Caladigão ou Casa de Audiências e Execução dos Condenados Estrangeiros.

Os réus tremem de pavor e em alguns passos do caminho caem de joelhos, abraçados uns aos outros, pedindo misericórdia em grande agonia. Estas demonstrações de emoção dos folangji, tidas por impróprias ou vergonhosas, causam espanto tanto nos upos como nos transeuntes com quem se cruzam e o rapazio, que corre atrás do cortejo, não os poupa às vaias, cuspidelas e pedradas.

Quando entram no pátio do Caladigão já ali se encontra muita gente do povo com requerimentos, mirando de soslaio os Vinte e Quatro Ministros do Braço da Ira, os algozes que aplicam os castigos e se perfilam diante de um pailó de cantaria, encimado por dois leões de prata e fechado por pesados portões de madeira muito bem lavrada.

Um sino tange, as portas abrem-se e a multidão entra de rompante para uma sala semelhante a uma nave de igreja, coberta de pinturas representando os vários castigos e penas de morte infligidas pela Justiça aos condenados, segundo os crimes indicados nos letreiros. Os dois chumbins guiam os estrangeiros até outra câmara, que atravessa a anterior como um cruzeiro de catedral, toda revestida a ouro.

Ocupa o centro do salão uma tribuna de sete degraus, com um dossel de damasco, cercada por três ordens de grades. Nos três primeiros degraus perfilam-se oito porteiros empunhando maças de prata e sessenta alabardeiros mogores, sentados sobre os joelhos, formam duas fileiras, imóveis como estátuas, vigiados por dois gigantes, de pé, com espadas a tiracolo e grandes alabardas nas mãos.

Sentado numa cadeira de prata, sob o dossel, o chaem segura na mão uma vara de marfim de três palmos, à maneira de ceptro. Vestido até aos pés de cetim roxo, tem ao pescoço uma espécie de escapulário com uma chapa de ouro no meio, onde está gravada uma balança direita e a legenda Peso, Conta e Medida e outros caracteres que Fernão desconhece. Cobre-lhe a cabeça um barrete redondo de varetas esmaltadas de verde e roxo, terminando no cocuruto pelo símbolo do imperador, um leão de ouro sentado sobre uma bola.

Ladeiam a cadeira do juiz dois meninos formosíssimos, de cabelos compridos como donzelas, trançados com uma fita de ouro e grossas pérolas. O da direita, trajado de cetim branco e com um colar de pérolas de três voltas ao pescoço, tem o cotovelo encostado à cadeira do chaem e segura na mão uma insígnia. O da esquerda, vestido de cetim carmesim, tem a manga direita arregaçada para mostrar o braço tinto de vermelhão, como a espada nua que segura na mão e a coroa em forma de mitra de bispo que traz na cabeça, com lâminas vermelhas como lancetas a sangrar. São tão belos que os portugueses não logram apartar os olhos deles.

– Até parece que o demo nos quer atentar a alma com o pecado nefando.

– Há tanto tempo sem mulher. cagava-me para o pecado, se lhes pudesse saltar em cima!

Fernão ouve nas suas costas as vozes abafadas que ousam pôr em palavras o desejo pecaminoso que os invade a todos e que ele procura sufocar, esforçando-se por escutar o tanigor que lhes explica também em surdina as coisas que vêem e os procedimentos que devem ter durante as cerimónias para não causarem escândalo com a sua rudeza:

– O menino da direita simboliza a Misericórdia e o da esquerda a Justiça, porque o chaem julga no lugar da pessoa do imperador, o qual representa Deus na terra, por isso tem de ser justo e misericordioso, para não ser apodado de tirano sem lei, usurpador da insígnia que traz na mão.

Diante do juiz, sobre uma mesa de prata, está um pequeno escritório redondo contendo um tinteiro e pó para secar a tinta. Ao redor da mesa, sentam-se três meninos, com ricos trajos e cadeias de ouro ao pescoço: os dos lados recebem as petições, o do meio molha a pena na tinta e dá-a ao chaem para ele as assinar. Em baixo, a cada extremo da tribuna, há uma mesa coberta de damasco roxo, com doze lugares, onde se sentam os mandarins do Crime e os do Cível.

– As suas vestes brancas com mangas largas mostram a pureza e largueza da justiça – elucida-os o tanigor.

O conchaly do Cível dá quatro pancadas rápidas num sino, para silenciar a assistência, faz a sua cortesia ao chaem e brada em alta voz:

Перейти на страницу:

Поиск

Нет соединения с сервером, попробуйте зайти чуть позже