– Calar e ouvir com prontidão humilde, sob pena do castigo que os chaens determinam dar aos desinquietadores do silêncio da justiça. O Céu o sabe.

Senta-se e o silêncio faz-se mais pesado quando o conchaly do Crime sobe à tribuna e lê vários rolos de processos que os oficiais lhe entregam, gastando na leitura muitas voltas de ampulheta até chegar à publicação da sentença dos estrangeiros.

Obedecendo às instruções do tanigor e dos upos, os nove réus ajoelham-se, sentando-se sobre os calcanhares, com as cabeças inclinadas a tocarem o chão e ambas as mãos erguidas ao céu como quem reza. Oram de verdade, sentindo um suor de gelo a arrepiar-lhes as carnes e a morte na alma, porque a do corpo é já certa e não tardará a ser-lhes anunciada.

No pátio das execuções esperam-nos os Vinte e Quatro Ministros do Braço da Ira para executarem a sentença e eles morrerão longe da pátria, sem ninguém para lhes recordar o nome, reclamar os seus corpos, chorá-los ou dar-lhes sepultura cristã. Deus abandonou-os, anojado pela sua impiedade de ladrões do mar e eles vão acabar as suas vidas na terra dos chins como párias, sem nome nem lei.

Para Fernão, de todas as iniquidades que haviam cometido, o rapto da doce Huyen, dois anos antes, fora a mais cruel, merecedora do maior castigo. Por essa torpeza pede agora perdão a Deus, de pálpebras cerradas e alma iluminada pela imagem da donzela de pele de seda e olhos amendoados que o enche de saudoso desejo, a ponto de o fazer esquecer onde está para volver à baía de Tilaumera, na terra dos cauchins, ao instante em que no junco de António Faria, ainda antes de a ver, se enamorara da formosa moça ao ler as palavras ardentes de paixão que ela escrevera numa carta ao noivo.

VII

Melhor é acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão

(chinês)

Carta da Noiva Roubada:

Se a fraca e mulheril natureza me dera licença para daqui onde fico ir ver a tua face, sem com isso pôr nódoa no meu honesto viver, crê que assi voaria meu corpo, a ir beijar esses teus vagarosos pés, como o esfaimado açor no primeiro ímpeto da sua soltura; mas já, senhor meu, que eu de casa de meu pai até aqui te vim buscar, vem tu daí donde estás a esta embarcação onde eu já não estou, porque só em te ver me posso eu ver, mas com me não veres na escuridão desta noite, não sei se na brancura da manhã me poderás enxergar entre os vivos; meu tio Licorpinau te dirá o que meu coração em si cala, assi porque já não tenho boca para falar, como porque minha alma me não sofre estar tão órfã de tua vista quanto a tua estéril condição o consente, pelo qual te peço que venhas, ou me dês licença que vá, e não me negues este amor que te mereço pelo que sempre te tive, porque Deus por sua justiça, em castigo de tal ingratidão, te não tire o muito que herdaste de teus antigos parentes neste princípio de minha mocidade, em que agora por matrimónio me hás de senhorear até à morte.

A desolada Su King que desespera de te beijar os pés.

(Peregrinação, capítulo XLVII)

O triunfo da armada de António de Faria sobre dois juncos corsários, no rio de Taunaquir111, rendera-lhes quarenta mil taéis de fazenda, mas a batalha fora renhida e a vitória custara-lhes quinze mortos além de muita gente ferida. O próprio capitão-mor escapara por um triz de ser atravessado por uma lança de arremesso, porque Fernão vira o golpe traiçoeiro e desviara-o a tempo, lançando-se sobre ele com risco da própria vida; o capitão prometera-lhe alvíssaras, erguera-se de um salto e prosseguira o combate. Também Cristóvão Borralho só não se perdera com o seu navio porque Faria, após ter desbaratado a chusma do junco que lhe abalroara a capitânia, acudira com os seus homens a socorrê-lo, varejando os inimigos e lançando-os ao mar.

No lado contrário, as perdas foram mais pesadas, com oitenta mortos e outros tantos cativos que recolheram do mar, por necessitarem de equipagens para os juncos. Puseram-nos a tratos, querendo saber se o capitão corsário era vivo ou morto, mas os homens, valentes e emperrados, preferiam morrer a falar, com grande agastamento de Faria que, embora lhes admirasse a bravura, desesperava do resultado.

– Ah, senhor! Ah, senhor! – chamara Borralho, que fora inspeccionar o segundo junco. – Acuda vossa mercê cá, porque temos mais costura do que cuidámos.

Abrira o alçapão da proa e descobrira gente cristã presa com cadeias, colares e algemas que Faria logo mandou soltar e trazer para o convés. Eram cinco meninos, oito moços, duas moças e dois portugueses, quase nus e tão maltratados que um dos portugueses teve de ser levado em braços, desacordado. O capitão proveu-os do necessário antes de lhes fazer perguntas sobre quem eram e como se chamava o ladrão que os cativara.

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