– Um senho de infortúnio e outro de fortuna? Não entendo.
– Deus ainda nos castiga por crermos em adivinhações de gentios!
Os chins eram muito supersticiosos e nada faziam, nem tomavam qualquer decisão importante nas suas vidas sem auscultarem os seus oráculos, jogos da sorte ou adivinhação, consultando os mestres do I-Ching, o misterioso Livro das Mudanças ou o popular Lien-hoa-lo, o Nenúfar Invertido. Vivendo há bastante tempo entre este povo, apesar de afirmarem a sua descrença de cristãos nestas práticas gentias, os portugueses já não eram totalmente isentos da sua influência, pelo que sentem um arrepio de inquietação com o obscuro vaticínio. A fim de desanuviarem os receios e premonições, desafiam-se a passear na mais celebrada rua de Pequim, que desemboca na praça onde se acham, a qual fora muito falada pelos hóspedes do monteo, como um deleitoso jardim, onde se podia fruir do vento, das flores, da neve e da lua.
É um fojo de mulheres belíssimas e privilegiadas, em relação às de partido que pagam tributo, por serem, na sua maioria, mulheres viúvas ou casadas que fugiam aos maus tratos dos maridos e exerciam o seu ofício em casas protegidas pelo governo; ali ninguém lhes pode fazer mal, porque têm seguro do Tutão, a autoridade suprema do reino. Também as há cativas, compradas e criadas desde meninas para agradar aos homens, sendo ensinadas a tanger vários instrumentos, a dançar e a cantar na perfeição, rendendo bom dinheiro aos seus senhores.
Pasmados com o seu requinte e beleza, os portugueses apalpam com dedos inconsoláveis as bolsas com a magra soldada, ansiando por um milagre que não surge, porque, à qualidade destas formosas servas do prazer, corresponde o alto preço dos seus serviços, muito além das posses dos três degredados que se sentem como Tântalo a morrer de fome e sede, rodeados dos mais apetitosos frutos e néctares, todavia incapazes de lhes chegar. Se queriam companhia e conversação com mulheres, não lhes restava outro remédio senão procurá-las nos arrabaldes mais modestos da cerca exterior ou nos barcos das tanka, essas mulheres de partido que estão proibidas de morar dentro da cidade e têm as suas pousadas na cidade flutuante de onde não podem sair.
Foi à entrada do cais das lanternas vermelhas que os seis companheiros os apanharam e não mais os largaram, arrastando-os para os ansiados barcos de flores, a fim de saciarem o prolongado jejum de mimos feminis. Manifestam ruidosamente a alegria pelo dia de folga e pela bolsa onde chocalha a prata que lhes dará acesso ao paraíso descrito pelos ilustres convivas da noite anterior. Com chistes brejeiros, evocam o traslado dessa lição da arte do quarto de cama, feito pelos seus línguas em termos tão ardentes e imagens tão sugestivas que, aliados à presença das cantoras e dançarinas, a uns tinham quitado o sono e a outros povoado os sonhos de imagens sensuais, deixando-os a todos exauridos de forças, pálidos como convalescentes de sezões.
– Precisamos de vossas mercês como línguas – brada Valentim, de olhos brilhantes –, para nos fazermos entender das beldades e termos conversação com elas.
– Não se diz ter conversação com a moça – zomba Gaspar –, mas banhar o corpo com ela ou meter a enguia na cova. Não haveis aprendido nada da lição de ontem?
– Eu não quero falatório – remata Pereira, mal-humorado. – Para mim, vai ser atar e pôr ao fumeiro.
A grande cidade feita de barcos119 tem a mesma ordem, nobreza e concerto da urbe que se ergue em terra, com mais de duas mil ruas de embarcações unidas umas às outras, muito compridas, direitas e fechadas com barcos de ambos os lados, cobertas com toldos de seda, enfeitadas com bandeiras e estandartes. Nas feiras, que duram quinze dias, da lua nova até à lua cheia, a cidade movediça aumenta de tamanho, espraiando-se por uma légua de comprido ao longo da terra e um terço de légua de largo, com mais de vinte mil embarcações. Tanta é a gente que vive pelos rios como a que habita em terra nas vilas e cidades, pelo que, se não estivesse sujeita a muita ordem e governo, se comeria uma à outra.
Por todo o lado, há casas de oração, ao modo de capelas, erguidas em barcaças tão grandes como galés, com toldos revestidos a folha de ouro, para abrigarem os ídolos das suas muitas crenças, onde os sacerdotes fazem as orações e os sacrifícios. Ali, como em terra, se acha toda a sorte de oficiais mecânicos e de comerciantes, repartidos por bairros, sendo os de um trato ou ofício impedidos de negociar ou laborar em outra coisa, sob pena de trinta açoites. Assim, dos criadores de porcos há os que só os podem vender vivos e inteiros; os que apenas negoceiam em leitões; os açougueiros com ofício de matá-los e vendê-los aos arráteis; outros encarregues da chacina e da venda das carnes de fumo, ou os que tratam dos miúdos de tripas, banhas, peles, sangue, fressuras.