– Nem sempre assim é, muitas vezes por culpa do marido – esclarece um oficial de patente superior à de Liu Xugang, que o escuta com muito acatamento. – Para conseguir a harmonia e felicidade no meu lar, quando comprei a minha última concubina e a levei para casa, embora me apetecesse fechar-me com ela no quarto de cama três dias seguidos, não o fiz. Dei muito mais atenção à minha esposa e às outras concubinas, para que não se sentissem humilhadas ou preteridas, contudo, sempre que me deitava com qualquer delas para os jogos da nuvens e da chuva, mandava vir a neófita para junto do leito, recomendando-lhe que prestasse muita atenção ao que a sua irmã fazia. Depois das quatro ou cinco primeiras noites passadas com as minhas mulheres, com a donzela a ver, deitei-me pela primeira vez com ela, desflorando-a, na presença da minha mulher e concubinas, para lhes mostrar que não a desejava ou lhe queria mais do que às outras. E assim conquistei a paz.

Soam aplausos e o mandarim felicita-o:

– Foi uma estratégia de mestre, própria de um adepto da Arte do Quarto de Cama. Pena que se tenha proibido a publicação dos tratados taoistas que poderiam ser de grande utilidade e fonte de conhecimento para estes estrangeiros que se mostram ávidos de aceder à nossa requintada civilização.

– Em verdade, deveríamos ter em conta que as mulheres estão sempre em casa, ocupadas com tarefas insignificantes de arroz e sal ou a enfeitarem-se para o esposo, tendo como divertimentos apenas a música, os bordados, os jogos de cartas ou o xadrez. A sua única satisfação e prazer residem nos jogos de nuvens e chuva com o seu senhor.

Voo de Fénix envia um sorriso de gratidão ao jovem letrado que acaba de falar e se ruboriza desvanecido com a atenção da formosa.

– Todo o homem devia conhecer bem a arte do quarto de cama para satisfazer a sua esposa e concubinas. As mulheres insatisfeitas são quezilentas e de difícil trato.

– A mestria do homem nas artes do amor tem mais valor para uma mulher do que a juventude ou a beleza do amante – acrescenta Gota de Orvalho, com provocadora zombaria para o moço letrado, agradecendo com acenos graciosos os calorosos aplausos da assistência.

– Conheceis os nossos Jardins de Flores? – pergunta aos folangji um abastado mercador de seda. – Não há melhor lugar para um homem esquecer as agruras da vida, cousa de que, a meu ver, estais bem necessitados.

– Quem nos dera, pois com tão prolongado jejum, já quase nem sabemos como é feita uma mulher! – Borralho suspira ruidosamente, arrancando grandes gargalhadas. – Porém, esses paraísos estão vedados aos que têm as bolsas vazias.

– Tendes os Barcos de Flores, no rio, embora as mulheres tanka não sejam muito educadas nem requintadas e falem em dialecto – sugere Sino de Prata, a cantora, com uma nota de desprezo na voz. – No entanto, podeis ter aí companhia, desenfadamento e ceia por módico preço.

– Deveis, todavia, tomar alguns cuidados na escolha do lugar e das moças – avisa o mandarim – porque muitas dessas mulheres passam ao homem o veneno da sua ameixa, disfarçando com sinais as manchas amarelas da sua pele. Deveis lavar-vos sempre antes e depois de estar com uma tanka e, antes do coito, untar a haste de jade de geleia ágar-ágar para cobrir feridas, prevenindo infecções.

– O velho está a referir-se ao mal de Cantão – diz Fernão em português para os companheiros.

Era chamado pelos médicos e boticários morbo napolitano e fazia muitas vítimas entre os portugueses da Índia que o tratavam com salsaparrilha e mercúrio, mezinhas assaz dolorosas, de pouco proveito. Sino de Prata, a mais velha das três moças, receita:

– Quando a haste de jade não se ergue, o remédio para a fortalecer é um xarope feito de um composto de cogumelos, folhas de sempre-verde e sementes de salsa, linho-de-cuco e laranja; basta tomar uma pequena colher três vezes ao dia, juntamente com vinho de arroz, para em poucos dias se fazer de novo forte.

– Pó de corno de veado com raiz crua de acónito é mezinha infalível. O general Wu tomava-o e teve um filho já depois dos oitenta!

As gargalhadas dos convivas premeiam a maledicência do militar perito na arte do amor, o qual, vendo o chão juncado de comida em volta dos cinco folangji que não falam nem compreendem a língua, não perde a oportunidade de os aconselhar:

– Voltando aos Barcos de Flores, mesmo nos mais modestos, deveis tratar as mulheres com a maior cortesia, ainda que não vos entendam, mostrando-vos carinhosos nos vossos gestos e falando-lhes com gentileza. Vós que sabeis a nossa língua, referi-vos não por nomes vulgares mas por palavras doces e poéticas às partes secretas das vossas parceiras, para que a vossa haste de jade tenha facilmente acesso à porta de jade ou do palácio de cinábrio, à entrada do quarto da felicidade, para chegar ao coração da flor, à peónia vermelha, ao fosso dourado.

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