Faz uma pausa, para que pesem as suas palavras e prossegue:
– Por outro lado, atendendo a que sois folangji e desconheceis os nossos usos, se me entregardes as vossas bolsas, deixar-vos-ei ir em boa hora, sem vos fazer qualquer dano. Falai com os vossos companheiros e decidi depressa, antes que passe o barco da patrulha.
Não há contradições nem argumentos entre os portugueses, obrigados pela necessidade a fazer tréguas: estão nas mãos dos facínoras e não podem arriscar-se a ser presos, pois teriam a pena agravada. Resignados, entregam as bolsas ao patrão da barca que, sem dizer palavra, as despeja numa balança de pesar prata e parece satisfeito, despedindo-os com um aceno.
Compõem as vestes rasgadas o melhor que podem e, fazendo apelo à sua dignidade espezinhada, de cabeça erguida, ombros lançados para trás, peito para fora, impantes de sobranceria, abandonam o barco das flores mais pobres e famintos do que quando penavam no tronco de Gofanjauserca.
119 Peregrinação, capítulos XCVIII e XCIX.
XIII
Quem ama mulher casada anda com a vida emprestada
(português)
Do Livro de Linhagens dos Freire d’Andrade:
Manuel Freire, filho 2.º de Nuno Freire e irmão de Rui Freire, o do Olho, foi casado com Grimanesa de Mello, filha de Álvaro Nogueira de Brito, de quem houve Dona Eirea Freire, mulher de Lopo de Brito, e Dona Isabel Freire, mulher de Dom João de Fárão, filho de Dom Sancho de Noronha, 2.º Conde d’Odemira, e outra freira, e bastardos, a Francisco Freire e Rui Freire d’Andrade. Este Manuel Freire é o que mataram à Porta d’Alfofa, em Lisboa, pela filha do regedor Aires da Silva e mulher de Francisco de Faria, com quem dizem que tinha amores. E com ele ia Fernão Peres d’Andrada, que escapou por pés, com o derrubarem primeiro, com ser muito bom cavaleiro e ter bons feitos na Índia120.
– Saímo-nos pior aqui do que no Mercado dos Cavalos Magros! – exclama Zeimoto. – Ficámos a ver navios e sem um real no bolso!
– Consola-te, homem, que estas putas eram feias – desdenha Borralho, despindo a veste molhada que se lhe colava ao corpo, acrescentando mais bizarria às suas figuras desgrenhadas que fazem os chins pararem a mirá-los.
– Corremos um grande risco de vida – acrescenta o prudente Fernão, imitando-o e ficando de tronco nu, como os mariolas que carregam os barcos –, maior do que no mercado das concubinas, pois aqui podiam cortar-nos as goelas e desfazer-se dos nossos corpos sem ninguém o saber. Tivemos muita sorte em só nos tirarem o dinheiro e os punhais aos que iam armados.
Foram os primeiros a entregar as bolsas e saíram antes dos outros, embrenhando-se nas ruas dos barcos, a fim de os despistarem e poderem regressar a casa sozinhos, jurando que não mais volveriam a andar com aquele bando de arruaceiros.
– Cães preados, má gafeira que lhes dê! – amaldiçoa-os Fernão, embora sem raiva, começando a achar graça ao entremez. – Uma boa história dos folangji para fazer rir o monteo e os seus ilustres convidados! Em cousa que meta mulheres, o azar persegue-me.
Cristóvão sorri, julgando que ele se refere à Noiva Roubada:
– Razão têm os matalotes quando dizem que a mulher, o fogo e os mares são três males que causam a perdição.
– E o pobre de mim que o diga! Desde muito cedo, na primeira casa em que servi, me vi enrolado em histórias de amores ardentes que me puseram a vida em risco.
– Conta lá essa, Fernão – roga Zeimoto. – Assim talvez nos salves o serão.
– Tinha eu uns doze ou treze anos e tive de fugir para salvar a vida. Ouvistes decerto falar de D. Joana da Silva, de Francisco Faria e de Manuel Freire?
– A que fez adultério? Estavas ao seu serviço?
– Aos doze anos já lhe fazias o serviço? Começaste cedo!
– Apesar de não ser eu o amante, amava-a como gente grande e por pouco não perdi a vida. Tive de fugir.
– Esse caso foi abafado. Era gente de qualidade.
– Que fizeste, inda tão cachopinho, pra te quererem matar?
– Podes contar-nos o teu segredo, descansado, que ele irá connosco para o túmulo!
Cede, contente por se libertar de um segredo que carrega há quase vinte anos:
– D. Joana era filha de Aires da Silva, o regedor das Justiças da Casa da Suplicação, senhor de Vagos e alcaide de Montemor-o-Velho, de onde eu sou natural, portanto não foi difícil a um dos meus tios, que era influente na terra, pôr-me ao serviço da sua nobre casa.
Agradada dos meus modos de gentil-homem de palmo e meio e da minha esperteza, D. Joana fez de mim o seu fiel pajem. Eu pagava-lhe o privilégio com cega devoção, enamorado da sua beleza, do bondoso sorriso, que não lograva esconder a melancolia dos seus olhos, sobretudo quando se achava só. Apenas na presença dos três filhos parecia esquecer essa paixão que a consumia.