Um engano, como tantos outros achados na sua obra, que se podem atribuir não só ao lapso de tempo de mais de três décadas, decorrido sobre os acontecimentos, como pela imensidade de eventos extraordinários, lugares, visitas, recepções, acidentes e desastres vividos pelo aventureiro, que dariam para preencher sete vidas. Irá ao Bungo, mas só na sua segunda viagem ao Japão.
Com base em outros testemunhos, mormente das crónicas dos reinos visitados por Fernão Mendes Pinto, à distância de cinco séculos, esta sua narradora tem procurado corrigir algumas das discrepâncias ou lapsos; todavia, não tendo achado para esta visita nenhuma outra fonte, recorre em alguns passos da sua narrativa à própria obra do autor, não por plágio, mas para dar o seu testemunho ao leitor que não a leu. Feito o aviso, retomemos a narração já com o aventureiro a meio da sua viagem.
A navegação faz-se com ventos bonançosos, sem incidentes, além de uma paragem na angra de Yamagawa, onde permanecem dois dias de visita ao capitão da cidade, um cunhado do Hizen-dono que estava muito doente. A visita parece dar ânimo ao enfermo que melhora de saúde e os despede com um grande presente de alimentos frescos. Na manhã do terceiro dia, seguem para norte até o porto de Kagoshima, no extremo oposto da magnífica baía enquadrada pelas penínsulas de Satsuma e de Ōsumi, que Fernão considera perfeito para abrigar as grandes naus do trato portuguesas. Numa espécie de ilhéu em frente do porto ergue-se o vulcão de Sakurajima que lança nuvens de grosso fumo e cinzas, trazidas pelo vento até ao barco, enchendo o português de temor
Deixam a funce e seguem a cavalo para casa do Hizen-dono, onde chegam ao meio-dia, sendo o tenjikujin muito bem recebido pela sua mulher e filhos, quando conseguem sair do pasmo que a estranha figura lhes causa. Depois de comerem e descansarem do trabalho do caminho, o governador e os seus parentes preparam-se para a visita a Shimazu Tadayoshi, envergando vestidos de cerimónia, tendo Fernão posto as suas melhores roupas de nanbanjin, por saber que a sua vista irá despertar a curiosidade do rei173 e dos nobres da sua companhia.
O luzido cortejo segue para o palácio, com muita gente a pé, indo a cavalo os principais membros da família, com o Hizen-dono na frente levando a seu lado o tenjikujin, de cuja presença se soube na cidade, fazendo acorrer gente de todas as partes para o ver passar. No palácio são recebidos por um menino de dez anos, filho do daimyō, acompanhado por nobres com uma guarda de seis porteiros de maças. O Hizen-dono, Fernão e toda a comitiva prostram-se a seus pés.
O príncipe dá-lhes as boas-vindas, falando com um siso mais próprio de homem que de menino, apesar do espanto que lhe causa o tenjikujin; manda-os erguer e, seguido pelo seu séquito, conduz o governador e Fernão ao paço real. Nos aposentos privados, o daimyō jaz entrevado numa espécie de camilha, tendo à sua volta as filhas e a esposa principal, sentadas sobre os calcanhares no estrado segundo o seu costume. De cada lado da espaçosa câmara, alinham-se os principais parentes e ministros do reino, de pernas cruzadas sobre os tatami.
Prestam homenagem ao senhor de Satsuma que os recebe com nova cerimónia e, depois de ler a carta de Tokitaka que o governador lhe entrega, faz-lhe algumas perguntas sobre a filha, sempre de olhos postos no tenjikujin. Fernão mantém-se um pouco afastado, tendo atrás de si o tçuzzu Sōgi que o Nautoquim lhe dera em Tanegashima, um letrado muito sabedor que, em voz sussurrada, lhe faz a traslação em língua chim de tudo o que ouvem. A pedido de Tadayoshi, o Hizen-dono chama Fernão, que vem ajoelhar-se no estrado, seguido como uma sombra pelo intérprete. O governador faz a sua apresentação, transmitindo os elogios que o genro fizera ao nanbanjin, acrescentando alguns da sua lavra, pois durante a viagem ganhara-lhe amizade. O português curva o torso numa profunda cortesia, erguendo acima da cabeça a espingarda embrulhada num luxuoso pano bordado, entrega-a em seguida à rainha, dizendo em voz alta: Teppōki.
A esposa do daimyō desembrulha a arma e mostra-a ao marido que não pode mover os braços. Exclamações de surpresa partem da assistência, à vista da arma nanban; por momentos o rosto de Tadayoshi, que se mantinha sereno e impenetrável apesar das dores, deixa transparecer o espanto, franzindo as sobrancelhas e enrugando o rosto.
– Prezaremos este presente como o maior tesouro da nossa família e Tanegashima Tokitaka tem a nossa gratidão para sempre – agradece o daimyō, saudando o enviado: – A tua chegada a esta terra, de que eu sou senhor, seja ante mim tão agradável como a chuva do Céu no meio do campo dos nossos arrozes.
A graciosa saudação, tão diferente de tudo o que Fernão ouvira, mesmo naquela nação de tanta polícia, deixou-o mudo de embaraço.