Sem nenhum escrúpulo, em troca de uma informação que ele não saberia dar-lhe, Kiyosada tinha-lhe metido a filha na cama, à força, indiferente ao seu sofrimento, como se ela fosse uma escrava ou cortesã e não uma donzela inocente. Tão singela e assustada, na primeira noite no junco, que a concubina Oe, deixada por Fukumi para dar amparo à sobrinha, fora deitar-se com eles, decerto cumprindo ordens da matrona.
Pensar nesse episódio, apesar do agastamento que lhe causara a situação, fá-lo sorrir com ironia e alguma vergonha. O muito sake que consumira, para afogar as visões de Huyen que o atormentavam quando olhava para Wakasa, não lhe deixara grandes recordações dos sucessos passados no reservado do junco. Lembrava-se do seu pasmo ao ver a concubina entrar na câmara, cheia de zumbaias, ajoelhar-se ao lado de Wakasa que chorava, sossegá-la com palavras murmuradas, cálidas como afagos, soltar-lhe com sorrisos maliciosos os cingidouros e laços de seda da roupa e, deitando-se a seu lado no leito, guiar a donzela em voluptuosos jogos de Vénus para o seduzir.
De espírito turvado pelo vinho, deixara-se envolver na macieza da rede tecida a quatro mãos sobre o seu corpo, embalado pelos sussurros e suspiros deleitosos. Seduzido pelo calor dos corpos macios – o de Wakasa, esbelto e intocado, o de Oe, voluptuoso e sedento –, acabara por adormecer e sonhar com a Noiva Roubada, sem se dar conta se teria tido conversação com a sua prometida, se com a concubina de Kiyosada ou mesmo com as duas.
Despertara de madrugada, com o choro que Wakasa abafava na manga do quimono. Estavam sós e ele afagara-a com ternura, procurando consolá-la com as poucas palavras de amor que conhecia em língua chim, dos poemas que ouvira em casa do monteo ou nos Jardins das Flores, dizendo-as com voz doce e carinhosa, como se falasse com uma criança, até ela deixar de tremer e corresponder obedientemente às suas carícias. Fernão tomara-a de novo, sem pressas nem violência, beijando-a com a ternura que quisera dar a Huyen e Wakasa, num gesto inesperado, deitara-se sobre o corpo robusto do nanbanjin e abrira-se como uma flor ávida de seiva, sem mostras de medo ou de repulsa.
Não acharam muito que dizer um ao outro, enquanto tomavam o dejejum que a concubina lhes preparara, cheia de sorrisos cúmplices; embora trocassem algumas frases na língua chim, Fernão tinha dificuldade em entender os sons que ela pronunciava e fora com alívio que vira chegar o barco de Fukumi que vinha recolher a sobrinha.
Fernão entregara à casamenteira a carta-do-dia-seguinte que o capitão ditara ao língua e cujo teor ele desconhecia, por lhe ser indiferente, visto as cartas do jogo estarem a descoberto desde o início e ele ter aceitado jogá-lo, conhecendo de antemão o seu desfecho. O peito da nakodo erguera-se num suspiro de alívio e um ligeiro sorriso abrandara por momentos a rigidez do seu rosto.
A missiva fora decerto feita a preceito, mostrando a satisfação do nanbanjin com Wakasa, o seu desejo de casar com ela, porque nessa mesma tarde os pais da noiva convidaram-no para o tokoro-arawashi, a cerimónia em que Kiyosada e Asamia lhe ofereceram os mochi, os bolos de arroz da aprovação paterna ao casamento, aprazado para daí a três dias, data de bom augúrio do seu calendário.
Não tivera tempo para pensar na alhada em que se metera, por ter de aprender uma infinidade de coisas novas que havia mister fazer para não ofender os seus anfitriões, sobretudo o daimyō que se interessara pelo casamento e dera ao seu armeiro um precioso quimono branco para a filha usar durante a cerimónia. Também ele vestira uma espécie de manto e umas calças pretas, largas como saias, o traje dos noivos japões oferecido pelos futuros sogros.
Sente um calafrio a percorrer-lhe a espinha. Jamais poderá referir o seu casamento com uma idólatra, no livro de memórias das suas viagens que há-de escrever depois de regressar a Portugal. Se a sua união feita por um bonzo num templo gentio soar aos ouvidos do Tribunal da Santa Inquisição ficará metido numa camisa-de-onze-varas, de que terá muita dificuldade em se livrar. Fizera os três portugueses jurarem solenemente que jamais o mencionariam a alguém, assegurando-lhes que se Wakasa o seguisse como esposa, ele se encarregaria de a fazer cristã logo que chegassem a Malaca.
O matrimónio também não agradara aos monges japões, que falavam em heresia e ofensa aos bons costumes, mas o seu principal acabara por se dobrar à vontade do daimyō que apadrinhava a união. A cerimónia até fora simples e bonita, com música de flauta, tambor, sinos e bênçãos de incenso. Wakasa estava formosíssima, embora coberta de alvaiade, mal podendo mover-se no pesado quimono branco de seda ricamente bordado, parecendo-se com uma imagem da Virgem Maria no altar de uma catedral.