173 Os portugueses davam o nome de reis aos daimyos e de reinos aos seus feudos.
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Caia sete vezes, mas levante-se oito
(japonês)
Relação de Jorge Álvares174 ao Padre Francisco Xavier, 1546:
Esta terra do Japão treme algumas vezes. É terra de muito enxofre. Há ilhas de fogo que todo o ano deitam fumo. Algumas também fogo. Delas são povoadas, delas não. Pela maior parte todas são ilhas pequenas. É terra esta do Japão muito ventosa e cheia de tormentas. Cada lua nova e cheia há mudamento de tempo. Principalmente no mês de Setembro vem cada ano um vento tão rijo que não há cousa que o espere. Porque dá com os navios em seco três ou quatro braças pela terra dentro, e se estão em terra, às vezes os torna ao mar.
Ao tempo que donde eu estava, a trinta léguas se perderam sessenta e dous navios chins e uma nau portuguesa. Dura só vinte e quatro horas, e começa ao Sul e acaba no Noroeste, correndo por todos os rumos. É vento que é conhecido por uma chuvazinha que vem sempre diante, e com este sinal175 se asseguram os homens da terra.
Fora com um imenso alívio que Fernão se vira livre das guerras dos siames e dos bramaas, nos finais da década de quarenta, para volver a Malaca, de onde embarcara com Jorge Álvares, um capitão mercador natural de Freixo de Espada-à-Cinta, que ia de veniaga para o Japão numa nau de Simão de Melo, capitão da fortaleza.
Após vinte e seis dias de navegação com boa monção, de ventos bonanças, avistaram a ilha de Tanega ou Tanegashima. Fernão, que não queria voltar a pisar a terra do daimyō Tokitaka – por razões que serão dadas mais adiante –, invocou os seus conhecimentos das ilhas para convencer Álvares de que aquele porto não era seguro, se sobreviesse novo temporal. O capitão concordou e rumaram para o reino do Bungo, que ficava cem léguas a Norte, tendo aportado cinco dias mais tarde à cidade de Fucheu176.
A notícia da chegada de um nanbansen, um navio dos bárbaros do Sul, como o que anos antes aferrara à insignificante Tanegashima, enchera Otomo Yoshshige de alvoroço, pela possibilidade de vir a possuir aquilo que mais desejava no mundo: uma teppō e o segredo do seu fabrico. Quando tivera conhecimento da maravilha trazida pelos nanban aos daimyō rivais, os seus espias conseguiram-lhe facilmente a fórmula do my-oyaku, o pó mágico usado na arma de fogo, mas não fora possível descobrir como eram fabricados os prodigiosos objectos. Os armeiros de Tokitaka e do seu sogro Shimazu Tadayoshi tinham feito uma boa quantidade de exemplares para usar na guerra dos seus clãs, mas as armas mostraram-se pouco eficazes por rebentarem após alguns disparos.
Soubera que, por extraordinária sorte ou pela protecção dos espíritos tutelares, um dos nanbanjins era Murashukusha, o mesmo que visitara o Nippon pela primeira vez e dera ou vendera a sua teppō ao senhor de Tanegashima. Corria pelas ilhas uma obscura história sobre o armeiro Yaita que dera a filha em casamento ao tenjikujin em troca do segredo do fabrico das teppō e do my-oyaku e que, por isso, se tinham desavindo e apartado descontentes.
Se assim fosse, Otomo esperava usar o descontentamento do estrangeiro em seu proveito, fazendo-lhe ofertas irresistíveis de tratos comerciais em troca do bendito segredo. Sem demora, enviou-lhes uma pequena embaixada de boas-vindas com presentes de refresco, para convidar Mura-shukusha, o capitão do nanbansen e os seus oficiais a visitarem-no, para falarem da venda das suas fazendas. Rogava àquele que já conhecia os usos da terra que levasse a sua teppō para uma demonstração, como fizera aos senhores de Tanegashima e Satsuma.
Segundo Fernão pôde depreender da mensagem que os enviados do daimyō trouxeram à nau, não existiam laços familiares ou de vassalagem entre o jovem Tokitaka de Tanegashima e Otomo Yoshshige, o poderoso senhor do reino do Bungo, de Higo e de Chikuzen.
– Que belo recebimento, Fernão! Ou devo dizer Murashukusha? – brincou Jorge Álvares, impressionado pela delicadeza dos enviados, com as suas cortesias e zumbaias sem fim, mas também pelo reconhecimento do companheiro e do modo como ele falara em chim com o seu língua. – Ainda bem que vieste connosco! Conhecem o teu nome, ao fim de tanto tempo e num reino onde nunca puseste os pés? Que fizeste tu aos japões, para seres tão reputado nesta terra?
– Oferecemos ao senhor de Tanixumaa um mosquete e um arcabuz, armas que eles nunca tinham visto – respondeu, tentando dominar a emoção causada por recordações que desejava esquecer e a conversa lhe trouxera à memória ainda dolorosas. – Como os seus daimyō andam sempre em guerra uns com os outros, acharam-nas umas armas magníficas e quiseram aprender a fabricá-las. O Ōtomo Yoshshige pensa o mesmo e cobiça um mosquete!
– Se com a oferta de um mosquete e de um arcabuz conseguires que este rei conceda isenção de tributos às nossa fazendas, eu próprio tos darei, dos melhores da armaria da nau, meu amigo.