– Peço-vos muito que não choreis – a voz do príncipe era fraca, mas teve a virtude de silenciar toda a gente. Olhava para os pais e, vendo marcas dos desgosto nos rostos pálidos, pareceu contrito e envergonhado. – Não deiteis a ninguém, muito menos a Murashukusha a culpa deste acidente, porque só eu sou culpado. Rogo-vos por minha vida, meu pai e senhor, que o mandeis soltar ou morrerei de remorso.
Ōtomo, com um grande sorriso de alívio, satisfez o pedido de Hachir-o-dono e mandou soltar Fernão. Chamaram duas juntas de bonzos físicas para o tratarem, mas o príncipe recusou-as, ao ouvir-lhes as arengas.
– Tirem-me esses diabos da frente – protestou agastado, impaciente com as dores dos ferimentos. – Tragam-me outros médicos que me não digam que Deus foi servido em eu estar desta maneira!
O daimyō estava desesperado e alguém alvitrou que se chamasse um velho bonzo, muito afamado, da cidade de Fucata. Com voz enfraquecida, mas num tom de grande zombaria, o príncipe respondeu-lhes:
– Belo conselho dais a meu pai, vendo-me assim tão ferido e necessitando de ser curado, para se me estancar o sangue. Quereis então que eu espere por um velho podre, que está a cento e quarenta léguas daqui, de ida e vinda, pelo que levará seguramente um mês a cá chegar?! – Ergueu a mão entrapada e voltou a cabeça com o lenço tinto de sangue para o daimyō, a fim de o comover com o seu rogo: – Meu pai, despejai esta casa e desafrontai Murashukusha, que não ganhou para o susto. Sossegai-o de que nada de mal lhe sucederá. Lembrai-vos de que ele não queria que eu mexesse nas teppō. – Soltou uma breve risada e acrescentou: – Ele me curará como souber, porque antes quero que me mate um homem que tanto tem chorado por mim, como esse coitado, do que o bonzo de Fucata de quase cem anos e sem vista nos olhos!
– Rogo-te que vejas se me podes valer neste perigo em que vejo meu filho – pediu Ōtomo a Fernão, que mal podia crer na súbita reviravolta daqueles sucessos –, porque te juro que quanto me pedires será teu, se mo deres são.
Os bonzos fizeram ouvir um coro de protestos, no entanto, o daimyō não lhes prestou atenção. E o médico, à força, fez valer a sua nova autoridade:
– Vossa Alteza deve mandar sair esta gente toda, porque fazem grande vozearia e o príncipe precisa de repouso, tal como eu necessito de silêncio para o tratar. Em um mês o farei são, se me deixarem sozinho.
Apesar da sua turvação quando vira Hachir-o-dono caído no chão a sangrar, ao ligar-lhe a cabeça com o lenço e o dedo com o trapo, apercebera-se com certo alívio de que as feridas, embora grandes, não pareciam perigosas. O polegar ficara meio pendurado, mas com uma fractura limpa, quanto à ferida da fronte, apesar de comprida, era pouco profunda, estando ambas ao alcance dos cuidados que permitiam as suas habilidades de aprendiz de barbeiro sangrador e físico.
– Prometo que te farei muito rico se deres saúde ao meu filho.
– Vossa Alteza verá com que cuidado o farei – respondera com lágrimas nos olhos.
Levara a cura a bom termo, embora sofresse, como em Satsuma anos antes, a má vontade, perseguição e intrigas dos bonzos médicos, muito zelosos e escandalizados do favor que o daimyō conferia ao nanbanjin.
Com a liberdade de que goza qualquer contador de histórias, na manipulação do tempo na sua narração, a narradora transcreve, em benefício do seu leitor, o que Fernão contou mais tarde ao padre Francisco Xavier, na sua terceira viagem ao Japão, onde ajudou o jesuíta a construir a primeira igreja naquela terra, emprestando-lhe uma pequena fortuna em prata de que ele nunca chegou a reembolsá-lo:
– Preparei tudo o que era necessário para a cura, e comecei logo pela ferida da mão por me parecer a mais perigosa, e lhe dei nela sete pontos, mas se fora curado por mão de cirurgião quiçá que muitos menos lhe bastaram, e na ferida da testa, por ser mais pequena, lhe dei cinco somente, e lhe pus em cima estopadas de ovos, e lhas atei muito bem como algumas vezes vi fazer na Índia. Aos cinco dias lhe cortei os pontos e continuando assi com a minha cura quis Nosso Senhor que dentro em vinte dias ele foi são, sem lhe ficar mais mal que só um pequeno esquecimento no dedo polegar, pelo qual el-rei e todos os senhores dali por diante me fizeram sempre muito gasalhado e muita honra.
Retomemos agora a narrativa principal que deixámos a meio, quando Fernão se prepara para cuidar pela primeira vez da saúde de um daimyō japonês.
174 Não confundir com o navegador do mesmo nome que foi o primeiro a pisar Cantão, em 1513.
175 O centro ou olho do tufão, com rotação em espiral, desloca-se no sentido de traslação com relativa calma, mas os efeitos da baixa pressão caracterizados pela chuva abarcam centenas de quilómetros à volta.
176 Ou Fuchu, actual cidade de Oita.
177 Peregrinação, capítulos CXXXVI e CXXXVII.
XI
As dificuldades são como as montanhas:
só se aplainam quando avançamos sobre elas
(japonês)
Um sangrador de Leirea
me sangrou estoutro dia,
e vedes que me fazia:
andand’a buscar a vea,
foi-me no cu apalpar: