Do alto da jaula lançam-lhe borrifos de água a ferver e o animal acusa a dor com um ronco furioso. É o sinal para o salto do tigre, a mostrar como a menor corpulência é compensada pela agilidade do seu corpo e velocidade de ataque. Parece voar e vai encaixar-se entre o cornos do búfalo, o corpo arqueado, com as garras das patas dianteiras a rasgar-lhe dez longas estrias sangrentas no lombo e as traseiras cravadas na barriga. Momentaneamente cego pelo corpo do adversário e desorientado pelos gritos da assistência, o touro recua contra as canas de bambu da cerca e sacode a cabeça para se libertar. Da assistência, os que estão mais próximos incitam-no, chegando-lhe ao corpo molhos de urtigas, por entre as barras de madeira.

O búfalo espinoteia desesperado e, com uma violenta sacudidela da cabeça, lança o tigre contra o solo, espezinhando-o; indiferente aos dentes e garras que lhe esfacelam o focinho, esventra-o com duas cornadas, recebendo uma estrondosa ovação da multidão delirante.

Fernão regressa à sua pousada, maravilhado pela luta a que assistira pela primeira vez. Os combates de animais eram os desenfadamentos mais apreciados pelos jaus e este fora mais impressionante do que os dos galos, os de dois búfalos ou mesmo entre um homem e um búfalo.

Está há quase dois meses em Sunda, uma espécie de ilha de trezentas léguas em redor, separada da grande Java pelo rio Chemano ou Chi Manuk e de Samatra, a Ocidente, por um largo boqueirão a que dá o nome. Ao longo das suas costas, incontáveis ilhas formam um estreito, no qual se acha o porto de Banten Girang, numa enseada de três léguas de largo, onde desagua um rio que divide a cidade ao meio e pode ser navegado por juncos e galés.

Não tivera tempo para estudar a terra nem os povos de Java, como gostava de fazer antes de uma primeira visita a qualquer reino ou lugar e estava um pouco apreensivo, embora saiba que, por mais que se procure conhecer os usos de uma nação, sempre se está sujeito a sofrer surpresas, por vezes abomináveis, como lhe sucedera no reino dos Batas, em Samatra, uns anos antes. Nos curtos períodos que passara em Malaca, onde vivia uma multidão de jaus, ouvira falar da ilha, das suas gentes aguerridas e traiçoeiras, colhendo também durante a viagem algumas informações dos seus companheiros que já tinham tido tratos nestes reinos.

Pêro de Faria, como sempre, conhecia muitas histórias, parecendo não haver empresa ou missão de perigo naqueles mares, no início das conquistas dos portugueses, em que ele não tivesse participado. Contou-lhe que no ano de mil quinhentos e treze, depois da tomada de Malaca por Afonso de Albuquerque, Páte Unuz, governador de Japara, na costa norte de Java, concertara em segredo uma poderosa armada, com dois mil guerreiros jaus e forte artilharia, para expulsar os portugueses da península malaia.

Por sorte, achava-se no porto de Malaca prestes a partir para Goa, o capitão-mor do mar Fernão Peres de Andrada. Um nome que Pinto ouvira nomear por mais de uma vez com grande admiração durante as suas atribuladas deambulações, depois de o ter conhecido em circunstâncias muito pouco honrosas, na sua juventude, como encobridor de adultérios. Ao ver o mar coalhado de velas, o capitão percebera que se tratava do ataque de Páte Unuz, anunciado havia algum tempo pelos seus espias. O jau navegava com muita dissimulação por entre as ilhas do lado de Samatra, para os portugueses pensarem que se tratava de uma frota vinda de Portugal.

Andrada fizera aparelhar sem demora uma armada de dezassete velas e saiu ao seu encontro. O capitão Pêro de Faria adiantara-se logo com a sua galé a remos, correndo quase a par da caravela muito veleira de Jorge Botelho e, em chegando ambos à distância de tiro do grande junco do Unuz, construído como uma fortaleza, bombardearam-no sem cessar, causando-lhe grandes danos e retendo-o até à chegada da frota portuguesa, que acometeu a inimiga com toda a sua artilharia, abalroando-lhe os seus navios e matando-lhe muita gente.

O confronto só cessou com a chegada da noite, quando ambas as armadas foram forçadas a lançar ferro perto de terra. Na manhã seguinte, Páte Unuz, ao ver-se abandonado pelo seu aliado mais forte, batera em retirada, mas Peres de Andrada perseguira-o e desbaratara-o, obrigando-o a fugir para Java. O feito dos portugueses foi tão notável que assombrou e atemorizou aquelas partes do Oriente, pondo fim à guerra com os jaus.

O que trouxera de momento algum alívio a Malaca, permitindo-lhe ocupar-se das outras duas frentes de batalha – os constantes ataques do deposto rei Mahamed, refugiado na ilha de Bintão, e os assaltos aos navios portugueses e à fortaleza pela armada do rei de Achem. Fora também o tempo em que se fizeram as viagens de descobrir às ilhas das especiarias, em particular, à Ilha do Ouro, uma busca que se transformara numa espécie de demanda do graal, intentada e continuada por muitos aventureiros dispostos a arriscarem a vida, em que Fernão ainda pudera participar.

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