– Têm tamanha cagança – avisara-o o capitão – que cuidam estar acima de qualquer outro povo. Se por acaso estiveres sentado sobre um poial ou de pé em lugar mais alto, quando um jau for a passar por ti, trata logo de descer do teu poiso até ele passar, ou és um homem morto, porque ele não consentirá seja a quem for, muito menos a um estrangeiro, a ousadia de cuidar que pode ficar mais alto que ele. Por essa razão não têm casas com sobrado superior para não terem ninguém a viver por cima da sua cabeça, a qual trazem descoberta e não consentem nela qualquer peso ou carga, ainda que por isso os matem. E muito menos deixam que alguém lhes toque na cabeça, tomando tal gesto por uma ofensa mortal.

Ficara a saber que o povo de Java prezava ao extremo as cortesias e zumbaias, a que todos obedeciam, dos mais baixos para os que lhes estão logo acima, numa interminável cadeia de preito e menagem até à pessoa do rei. Tem procedido sempre com muito acatamento, de modo a não causar melindres, porque à menor ofensa à sua honra, os jaus fazem-se amoucos para se vingarem, matando às crisadas num acesso de frenesim não só a quem os ofendeu, mas a todos aqueles a que possam lançar mão, antes de serem presos ou mortos.

Passados quase dois meses de ali estar a fazer pacificamente as suas mercancias, não lhes achara grande fundamentação para a dita prosápia, antes pelo contrário, parecera-lhe uma nação de pouca polícia, sendo as habitações da gente comum humildes cabanas, feitas de canas de bambu entretecidas e cobertas de barro, com tectos de folhas de palma, sem janelas, com uma entrada baixa por onde passa a luz, de um ou dois aposentos para toda a família e algumas galinhas, além de uma varanda um pouco mais alta, onde as mulheres fazem os seus trabalhos de fiar, tecer, amassar e cozer.

A chegada de Niyai Pombaya, a Irmã Mais Velha, uma mulher de sessenta anos de idade, viúva do supremo imã Kiyai Pembayun, enviada por Trenggana, o imperador de toda a ilha de Jaoa, Angenia, Bali, e Madura, com todas as mais ilhas deste arcipélago – os títulos que o tirano mouro atribuíra a si próprio – veio estilhaçar a paz e os negócios dos portugueses.

O reino gentio de Sunda ou Banten, outrora aliado dos portugueses, fora subjugado no ano de vinte e sete com grande violência e mortandade, por Trenggana, o sultão muçulmano de Demaa, na costa norte de Java Central, sendo agora seu vassalo. No entanto, apesar da mudança de poder e de religião, o rajá Hasanudin consentia que a sua gente fizesse tratos comerciais com os portugueses, de modo que eram frequentes as viagens de Goa ou de Malaca a Banten para resgatar pimenta, como fora o intento de Fernão.

Estando sujeito ao Pangeran de Demaa, com cuja filha casara, o rajá quis ir em pessoa, com grandes mostras de cortesia, receber a embaixadora Niyai Pombaya ao seu calaluz, um pequeno mas rápido barco a remos muito comum nos mares de Java, que atracara ao cais. A ostentação e pompa do seu cortejo fizeram pasmar Fernão e os restantes portugueses.

Todos os caminhos do percurso real, desde os paços ao cais, tinham de cada lado incontáveis estandartes e bandeiras a esvoaçarem ao vento, intervalados por páyungs ou pára-sóis de três fieiras, de seda franjada, ornamentados com ouro, assim como grande número de gamelans com os músicos a tangerem com todo o vigor a panóplia dos seus instrumentos. Uma fila interminável de lanceiros com os seus trajos de guerra, de cuja faixa de cintura de várias voltas pendiam a espada e três crises, um de cada lado e o terceiro atrás, exibiam-se em atitude de combate.

Nenhum pormenor fora descurado para mostrar a riqueza e o alto estado do rei, a começar pelo páyung cor de ouro que só ele pode usar, erguido bem alto por um portador na frente do cortejo. Numa carreta puxada a cavalos, em forma de leito, com um belo trabalho de marcenaria, vem Hasanudin, nu da cintura para cima, com o torso e os braços cobertos por um pó amarelo brilhante. Ornado com muitas jóias, traz um pano de seda a envolver-lhe as ancas, caindo em pregas, apertado por uma faixa de cintura, onde brilha o punho trabalhado do cris de ouro. A seu lado repousa o escudo, com incrustações de pedras preciosas, mais por vaidade do que para se proteger dos ataques traiçoeiros de um qualquer amouco ou rival que lhe cobice o trono, porque para o defender tem a sua poderosa hoste de lanceiros, os wáhos. Seguem-no oito portadores das imagens do elefante sagrado e do touro e um segundo grupo de palafreneiros que conduz quatro cavalos ricamente ajaezados.

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