– Não há dúvida que tens boa lábia para embaixador, para mais, falas bem as línguas destas terras – exclamou Pêro de Faria maravilhado com a sua história. – Servirás o meu propósito melhor do que todos os que por cá andam agora.
O capitão passou o serão a pô-lo ao corrente dos últimos sucessos dos portugueses na Índia, de que andava há muito arredado, por terras do Cataio e do Cipango. A que mais paixão lhe causou foi o martírio de D. Cristóvão da Gama às mãos do rei de Zeila, Ahmed al-Ghazi, o Granhe ou Canhoto.
– Quando soube que a armada dos portugueses estava às portas do mar Roxo, no ano de quarenta e um, a rainha Sabla Vangél mandou o Barnagais ao governador D. Estêvão da Gama, com um urgente pedido de socorro.
– Ela já tinha enviado um dos seus bispos comigo – apressou-se a dizer Fernão – com o mesmo pedido, mas, como ficámos cativos dos mouros e o abexim morreu, perdeu-se o recado e a ajuda. D. Estêvão mandou lá o irmão mais novo?
– D. Cristóvão ofereceu-se e não descansou enquanto não conseguiu o comando da expedição de quatrocentos portugueses, tudo gente honrada e experimentada na guerra, mais duzentos abexins para os assistirem.
– Só quatrocentos? Para combater um exército bem disciplinado de mouros e turcos sob o comando do Canhoto numa jihad contra os cristãos? Espanta-me que não tenham morrido todos no primeiro encontro.
Apesar dos entraves, tinham alcançado espantosas vitórias, segundo contara Miguel Castanhoso, um dos sobreviventes da campanha, primeiro sozinhos, porque os abexins tinham desertado o seu rei aos milhares, fugindo para as montanhas ou passando-se para o lado do invasor, a fim de salvarem a vida e os seus bens.
Com a entrada do ano de quarenta e dois, depois da tomada de uma serra fortemente defendida pelos mouros, as vitórias portuguesas sucederam-se e os abexins começaram a recobrar ânimo, muitos vindo a incorporar-se no pequeno exército de Anaf Sagad, engrossando-o.
Apesar da superioridade numérica, da experiência e qualidades de comandante de Ahmed al-Ghazi, o ardor e valentia de D. Cristóvão (que bastas vezes raiavam a temeridade), conseguiram vencer os batalhões mouros em dois combates, fazendo grande mortandade nos seus homens.
Na terceira batalha, a sorte mudou, porque o rei de Zeila veio sobre eles com todo o seu exército, não lhes dando tempo de se reunirem às forças do Preste que vinham ao seu encontro. Os portugueses foram desbaratados, ficando pelo campo muita gente morta e ferida, tendo o próprio D. Cristóvão levado duas arcabuzadas numa perna e no braço direito, quebrando-lho por cima do cotovelo. Por fim, os turcos invadiram-lhes o arraial e os portugueses sobreviventes foram forçados a fugir para uma serra defendida por gente fiel ao Preste.
Na precipitação da fuga, Miguel Castanhoso, que tinha a seu cargo a protecção de Sabla Vangél, apesar de muito ferido, conseguiu pô-la a bom recado, mas, D. Cristóvão com os catorze fidalgos seus companheiros constantes, perderam-se com a escuridão da noite e tomaram outro caminho.
No seu rasto foram doze turcos de pé e vinte de cavalo, desejosos de o alcançarem, dando com ele num bosque, junto do ribeiro onde se acoutara e os companheiros lhe cuidavam da perna e do braço. Tomaram-nos de surpresa, prenderam-nos com grandes gritos de prazer, levando-os com muito escárnio e pancadas para o arraial de Ahmed al-Ghazi.
Diante da tenda do rei estavam espetadas cento e sessenta cabeças de portugueses, porque o Granhe pagava por cada uma que os seus homens cortassem. Quando D. Cristóvão entrou na tenda, o mouro mandou que lhe trouxessem as dos catorze companheiros e, para mais o magoar, bradava-lhe com grande gáudio dos seus homens:
– Que gente é esta? É com esta ralé que querias tomar a minha terra? Vês agora a tua doudice? Por tão grande atrevimento desejo fazer-te grande honra.
Despiram-no, ataram-lhe as mãos atrás das costas, açoitaram-no cruelmente e com os sapatos dos seus negros deram-lhe bofetadas no rosto. Segundo contou Miguel de Castanhoso:
– E das suas barbas lhe fizeram fazer candeias de cera, e fez-lhe pôr fogo nelas. E com tenazes lhe fez arrancar as pestanas e sobrancelhas. E, depois disto, lhe fez que visitasse todas as tendas dos seus capitães, para seu refrigério. Foram-lhe feitas muitas injúrias, as quais ele sofria com muita paciência, dando muitas graças a Deus por o trazer a tal estado depois de haver conquistado cem léguas de terra para os cristãos, tirando-as aos mouros que lhas tinham tomadas.