Estes mercadores e corsários que andam nos tratos por conta própria ou dos seus protectores, portanto, fora da alçada da Coroa, poderiam ser facilmente aliciados por el-rei com algum cargo ou posto menor, levando-os a gastar o que têm e até a morrer a seu serviço e do reino. Haveria de recomendar a Sua Alteza que fizesse mercê a este Fernão Mendes e aos seus irmãos de os receber como seus moços de câmara, se o ajudassem.

Na presente ocasião, porém, todas as informações que ele lhe possa dar de Java e das ilhas que se estendem até às Molucas, serão muito bem-vindas.

– Não nos quereis contar esse vosso naufrágio? – roga-lhe.

– Se ninguém se opuser, contarei, apesar da paixão que ainda me causam as lembranças do que passei e dos amigos que perdi. – Hesita por momentos e acrescenta com ironia: – Além de correr o risco de ser tachado mais uma vez de mentiroso.

195 Pode tratar-se de cristãos nestorianos, que habitariam nos montes a Oeste de Pequim, a um dia de caminho da cidade.

196 Luang Prabang.

VII

Quem boceja a pescar não apanha peixe

(maori)

Martim Afonso de Sousa [deu a capitania da expedição] a um Jerónimo de Figueiredo, fidalgo do Duque de Bragança, que no ano de 1542 partiu de Goa com duas fustas e uma caravela em que levava oitenta soldados e oficiais da mareação, e não teve efeito a sua ida [à Ilha do Ouro] porque parece, segundo o que despois se viu, que desejando ele de ser rico mais depressa do que o esperava ser pela via que levava, se passou à costa de Tanauçarim, onde tomou algumas naus que vinham do estreito de Meca, de Adem, de Alcosser, de Judá, e de outros lugares da costa da Pérsia, e por se lá dar mal com os soldados, e não partir com eles do que tomara, conforme ao que de direito lhes vinha, se levantaram contra ele, e depois de outras muitas cousas, que me pareceu razão não se escreverem, o ataram de pés e de mãos, e o levaram à ilha Ceilão, onde o lançaram em terra no porto de Galé, e a caravela e fustas levaram ao Governador Dom João de Castro, que lhes deu perdão do que tinham feito, por irem d’Armada com ele a Diu a socorro de Dom João Mascarenhas, que então estava cercado dos Capitães delRei de Cambaia, e de então pera cá se não tratou mais deste descobrimento, que tão proveitoso parece que será para o bem comum destes reinos, se Nosso Senhor fosse servido que esta ilha [do Ouro] se viesse a descobrir.

(Peregrinação, capítulo XX)

Tinham viajado para a China em conserva com os quatro navios de portugueses que também carregavam pimenta em Banten, porém Chincheu estava em grande desassossego com revoltas do povo e a armada do aytao a patrulhar as costas por causa dos wokou, os corsários japões que assolavam as suas costas. Na impossibilidade de fazerem os seus tratos, decidiram rumar a Chabaquee, acabando por saltar da panela para o fogo, como soe dizer-se, porque ali estavam surtos mais de cem juncos que os acometeram, tomando três dos cinco navios, com a morte de muita gente das tripulações, incluindo alguns portugueses.

Escaparam ao ataque o junco de Martim Esteves onde ia Fernão e o de um mercador de Cochim, ajudados por ventos que os empurraram para sudeste, livrando-os dos seus perseguidores, mas lançando-os num mar por onde nunca tinham navegado. Não lhes durou muito tempo a bonança, porque logo lhes saltou um temporal medonho que apartou os dois navios para não mais se encontrarem. O vento soprava tão rijo de escarcéu e ondas cruzadas que não podiam socorrer-se das velas, com o junco ora a correr em árvore seca, ora pairando de través, com medo das restingas e baixios, de que era basto aquele mar desconhecido coalhado de pequenas ilhas e ilhéus desertos, por onde navegaram durante mais de um mês, sem acharem baía, praia ou enseada segura onde pudessem aportar.

Quando o junco abriu um rombo e alagou a primeira coberta, foram forçados a alijar toda a fazenda ao mar e Fernão, desesperado por mais uma vez ter perdido a fortuna arduamente conquistada, sentiu-se esmagado por um sentimento de culpa que o vinha há muito tempo atormentando: a certeza de ser um réprobo, um excomungado, cujo pecado ou má estrela condenavam também à perdição os companheiros de viagem.

Quase todos os navios em que viajara haviam naufragado ou sido aprisionados por corsários e mouros inimigos, com morte e sofrimento de muita gente. Acreditava piamente que era vítima de uma qualquer maldição, feitiço ou mau olhado que alguém lhe lançara, decerto invejoso da protecção de Pêro de Faria, das missões a que ele o enviara e lhe tinham trazido momentânea fortuna. Um enguiço cruel e desmedido que o poupava sempre à morte para, todavia, o atormentar de remorsos, matando-lhe os companheiros, os amigos e até a mulher que mais amara. Já se fizera benzer por padres, homens santos e feiticeiras, sem resultado. Imprecado! Anatematizado, sem remédio.

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