Tais informações haviam espevitado o já de si bem ardente zelo missionário de Francisco Xavier, decidindo-o a empreender a viagem de mil léguas, desde Goa até Macassar. Estudara e prepara-se bem para aquela empresa e presentemente ocupava-se em sacar as orações do latim para linguagem que na ilha se pudesse entender, como contava nas cartas para os seus confrades, assegurando-lhes que era cousa mui trabalhosa não saber a língua.
Por isso mesmo lhe custava tanto sofrer, com humildade e resignação próprias de um sacerdote, aquele revés que o forçava a renunciar ao seu sonho, porque, se fossem verdadeiras as notícias do escândalo que rebentara em Macassar, o futuro da evangelização dos gentios ficaria para sempre comprometido. Ainda não ouvira a explicação do reverendíssimo Chantre (supondo que ele lha daria), porém os mexericos e enredos que corriam à boca cheia por Malaca não agouravam nada de bom.
Segundo conseguira apurar, sem fazer demasiadas perguntas, o padre Vicente Viegas baptizara o rei e a rainha de Supa, com os nomes de D. João Tubinanga e D. Arcângela de Linta, a princesa sua filha, D. Helena Vessiva, com outros membros da família real, assim como muita gente da nobreza e do povo. Fora difícil arranjar padrinhos para tamanha multidão de conversos e D. João de Herédia Aquaviva fora escolhido para apadrinhar el-rei, por ser o mais nobre dos cristãos-velhos ali presentes.
O moço fidalgo pertencia à família de D. Filipe de Herédia, conde de Fuentes, um nobre aragonês que se mantivera fiel ao partido da infanta D. Joana e do rei seu tio, D. Afonso V de Portugal, na luta pelo trono de Castela contra a usurpadora Isabel, a Católica, que saíra vencedora da contenda. D. Filipe, temendo represálias, seguira a despojada Beltraneja e o seu real paladino a Portugal, onde passara a viver com toda a sua família.
Além de fidalgo de boa cepa, D. João de Herédia era um moço valente, bem apessoado e galante, atributos de sobejo para despertar as mais ardentes paixões nas nativas da ilha, a cuja natureza sensual e propensão para a luxúria nem o baptismo purificador lograva pôr freio. A formosa filha d’el-rei de Supa não fora excepção.
D. Helena Vessiva enamorara-se de D. João, com toda a pujança dos seus quinze anos e a fogosidade da sua raça, enfeitiçando por sua vez o moço, de tal modo que o levara ao extremo de cometer uma loucura, que poderia causar uma guerra entre os macassares e os portugueses: quando o junco que transportara os missionários para a ilha estava pronto para retornar a Malaca, D. João escondera a princesa com muito segredo no seu reservado e trouxera-a consigo.
Tendo já algum conhecimento do carácter dos povos orientais – mesmo dos bárbaros que ainda guardavam rituais de canibalismo, como os povos da Celebes –, o irmão Francisco Xavier sabia como lhes custava perder a face ou deixar por vingar ofensas à sua honra, por isso imaginava facilmente que o grande escândalo e a vergonha infligida a el-rei de Macassar e aos seus parentes tão cedo não permitiriam a presença de padres ou de mercadores portugueses na sua terra.
Suspirou com mágoa, sem todavia se dar por derrotado. Nessa noite haveria de saber a história com toda a minudência da boca do próprio capitão da fortaleza que, conhecendo o seu interesse em ter informações daquelas terras, o convidara para a ceia, onde também estaria Fernão Mendes Pinto, um mercador muito abastado e aventureiro, que fora dos primeiros portugueses a visitar a China e o Japão.
Se não pudesse ir para Macassar, partiria para Amboíno, uma das ilhas Molucas onde os jesuítas queriam lançar ferro, porque seria então da vontade de Deus destinar-lhe essa missão. Tinha também muito interesse em ouvir o que esse tal Fernão Mendes tinha para contar, porque, como andava com os seus dois irmãos nos tratos de mercadorias naqueles mares, conhecia por experiência todos os portos e lugares gentios, livres do domínio muçulmano.
Na fortaleza, só se fala do novo cerco de Diu. Coja Çofar, o renegado italiano ao serviço de Mahmud Sh-ah, sultão de Cambaia, a quem se ficara a dever o primeiro cerco àquela fortaleza, não esquecera a humilhação da derrota que lhe infligira António da Silveira com o seu punhado de valentes. Voltara disposto a vingar-se e a conquistá-la, cercando-a com um exército de guzerates, turcos e abexins, ainda mais poderoso do que o anterior, sujeitando-a a constantes assaltos. O capitão de Diu, D. João de Mascarenhas, tal como Silveira, apesar de ter uma guarnição com pouquíssima gente, lograra até então rechaçar todos os seus ataques, causando pesadíssimas baixas aos inimigos, inclusive a do próprio renegado.
– Apesar da morte de Coja Çofar e dos sucessivos desastres, os turcos e guzerates mantêm o cerco – conta o capitão da frota de patrulha que trouxe as últimas notícias. – Não creio que os nossos possam resistir por muito mais tempo.