A barca que descia o rio, carregada de madeira, pareceu-lhes uma miragem, mas logo reconheceram que estavam salvos, quando os nove homens que nela vinham se lançaram à água como se tivessem visto um bando de demónios em figura de gente. Sete dos recém-chegados eram jaus, Fernão e Rui de Moura falaram-lhes algumas frases na língua dos mercadores, sossegando-os e eles acercaram-se para lhes fazerem perguntas. Os dois negros nus, de cabelos frisados como lã, eram parecidos com os da Guiné, embora mais pardos, empunhavam lanças com pontas de pedra e mostravam-se desconfiados, mantendo-se a uma distância segura.

– Levai-nos convosco para qualquer povoação – rogaram ao jau que parecia comandar o grupo, aguçando-lhe a cobiça, característica da sua raça –, onde nos podereis vender como vossos cativos a gente que nos leve a Malaca, porque somos mercadores ricos e lá lhes darão muito dinheiro por nós ou quanta fazenda quiserem.

Pareceram apiedar-se dos náufragos e acederam a levá-los, todavia, para sua segurança, teriam de lhes dar as armas. Os portugueses entreolharam-se em mudo conselho, hesitando em meterem-se indefesos nas suas mãos, mas não tinham escolha. Relutantemente, entregaram os mosquetes e arcabuzes, fiados na sua palavra e na protecção da Divina Providência, que mais uma vez virou o rosto, distraída.

Na posse das armas, os traiçoeiros jaus chegaram com a barcaça mais perto, fazendo sinal para que se lançassem à água e nadassem para ela. Dois moços e um português obedeceram, mas não chegaram sequer a meio do caminho, acabando na boca de monstruosos lagartos que os desfizeram em pedaços e os engoliram, deixando apenas um remoinho de sangue na água. Os jaus riam e aplaudiam, zombando do pavor dos oito náufragos que se achavam na margem do rio e por nenhuma coisa do mundo entrariam dentro de água.

– Vem cá! Vem cá! – bradaram-lhes os dois cafres nus. – Água! Água!

Fernão pensou que o medo lhe fazia ouvir vozes, pois os negros estavam a falar em português! Atolados na vasa, os oito infelizes mal se podiam mover e os dois cafres saltaram em terra com três jaus para lhes atarem as mãos, levando-os de rastos para a barcaça. Quando os dois negros se acercaram dele, Fernão arregalou os olhos de espanto, vendo que ambos traziam fios ao pescoço, um com uma medalha e o outro com uma cruz de ouro. O da medalha inclinou-se para o prender e Fernão viu a inscrição que tinha gravada. Soltou um grito ao reconhecer o nome de um dos descobridores da Ilha do Ouro, que havia desaparecido sem deixar rasto.

SIÃO

Quando o Ser Supremo viu que era chegado o tempo do seu advento, escolheu o lugar e a mulher que haveria de o dar à luz e na cidade de Kapilavastu, na noite de lua cheia do solstício de Verão, a virtuosa Maha Maya, mulher do rajá, teve um sonho pertur-bador:

Os quatro arcanjos Guardiães do Mundo apareceram na sua câmara e transportaram-na no seu leito pelos ares até às montanhas dos Himalaias e depositaram-na sob a Grande Árvore Sāla, de sete léguas de altura, na Planície Carmesim. As suas rainhas levaram a mulher adormecida até ao lago Anotatta onde a banharam para a libertar de toda a mácula humana vestiram-lhe um trajo celestial, ungiram-na com óleos e perfumes, coroando-a com flores.

Na Colina de Prata erguia-se a bela mansão dourada, em cuja câmara principal as rainhas haviam preparado um leito, com a cabeceira virada a Oriente, onde deitaram Maha Maya sempre adormecida.

O futuro Buda, com a forma de um soberbo elefante branco desceu da Colina de Ouro, não longe dali. Segurava uma flor de lótus branca na tromba e, soltando um portentoso bramido, entrou na mansão dourada, dirigindo-se ao leito de Maha Maya, à roda do qual deu três voltas, curvando-se diante dela em obediência. Depois, tocou-lhe com toda a delicadeza no lado direito, que se abriu para o acolher no seu ventre.

No dia seguinte, ao despertar, Maha Maya contou o sonho ao rajá, seu marido. Disseram-lhe os brâmanes: A tua rainha concebeu um filho macho. Se ele escolher a vida laica, há-de ser um Monarca Universal; mas se deixar a sua casa e escolher a vida religiosa, tornar-se-á num Buda, que livrará o mundo dos véus da ignorância e do pecado.

E assim Buda foi concebido no fim do Festival do Solstício de Verão.

VIII

Se vires um elefante cagar, não tentes cagar tanto como ele

(Sião)

Carta do irmão Fernão Mendes aos padres da Companhia de Jesus:

No reino do Sornao197, que se chama Sião, onde fui por duas vezes, estive na cidade de Odiaa198, que é a corte d’el-rei, afirmo-vos que é a maior cousa que nestas partes vi. Esta cidade é como Veneza porque pelas mais das ruas se anda por água. Terá, segundo ouvi dizer a muitos homens, passantes de duzentos mil batéis pequenos e grandes. Se são duzentos mil ou não, eu não no sei, mas eu vi caminho de uma légua pelo rio sem poder romper com batéis, afora muitas feiras que se fazem nos rios, ao redor da cidade, que são como festas dos ídolos. E a cada uma destas feiras vão passante de quinhentos batéis e às vezes passam de mil.

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