– Estamos num beco sem saída! – exclama Fernão. – Como é que.
Cala-se antes de terminar a frase. Do céu, bem atado a umas correias de couro cru, muito fortes, vem descendo um cesto onde cabe um só homem, o único meio de transporte para atingir o cume da fortaleza de pedra que é a própria montanha ou amba de Damaa. Um a um os emissários entram no cesto e são içados para as nuvens, mareados dos solavancos e da bebedeira da noite anterior.
Pasmam do que os seus olhos vêem e Barbosa lhes descreve quando se lhes junta com os seus principais oficiais. O cume em forma de sombreiro é tão saliente que domina todo o sopé da montanha, de modo que ninguém pode chegar a ela sem ser visto. Na sua aba dera-lhe a natureza como que uma tesourada, fazendo-lhe um pequeno rasgão, a modo de escotilha de navio, por onde apenas podia passar um cesto ou uma padiola alados por uma corda com um só homem de cada vez. A abertura era cerrada por portas de ferro.
O sombreiro mediria um quarto de légua de circunferência e nele havia duas grandes cisternas que recolhiam água das chuvas no Inverno, o bastante para abastecer os cerca de quinhentos moradores e regar os campos semeados de trigo, cevada, milho, favas e lentilhas, além de terras de pasto com muitas cabras, currais e capoeiras e inúmeras colmeias.
– Aqui está uma fortaleza que não se pode tomar – exclama Fernão.
– Sabla Vangél vive aqui recolhida há vários anos – concorda o feitor. – Dizem que el-rei de Zeila teve esta serra cercada com todo o seu arraial, para deitar as mãos à rainha, que ele cobiçava por ser formosíssima, como vereis que ainda é, se ela vos mostrar o rosto. O velhaco retirou-se ao fim de um ano, reconhecendo que não a podia vencer pela fome e pela sede.
Dirigem-se em silêncio à capela onde a mãe do Preste foi ouvir missa, nesse Domingo, e aí quis receber os emissários com todas as honras. Os portugueses ajoelham-se na sua frente, beijam-lhe o leque que ela tem na mão e fazem-lhe outras cortesias ao modo da terra como o feitor lhes ensinou. Sempre de joelhos escutam a sua doce saudação, trasladada pelo língua:
– A vossa vinda, cristãos de Portugal, é para mim tão agradável e foi sempre tão desejada de meus olhos, como o fresco jardim deseja o borrifo da noite. Vinde em boa hora e sentai-vos nessas esteiras que quero saber novas de onde vindes.
É um grande privilégio que lhes concede, convidando-os a sentarem-se a poucos passos da sua pessoa.
– Como se chama o Papa que agora reina? – pergunta, com a boca cheia de riso, mal os vê aquietados. – Quantos reis há na Cristandade? Porque se descuidam eles tanto na destruição do turco?
Respondem-lhe o melhor que podem, mas Sabla Vangél insta-os, cada vez mais séria, com perguntas que mostram a sua ansiedade pelo auxílio que tarda:
– Não sabeis nada, então, da resposta do vosso rei ou do governador da Índia ao meu pedido? Não enviaram nenhuma armada?
– A distância é imensa, Alteza – responde Fernão, apiedado da sua ansiedade e mentindo um pouco a fim de a tranquilizar. – Para ir e vir à Europa, para mais tratando-se de negócios de tanta monta e demorados pareceres, serão precisos três anos senão mais.
Depois de ouvir o traslado, a rainha faz uma curta pausa e o seu rosto toma uma expressão resignada, prosseguindo todavia com as suas perguntas:
– É grande o poder que el-rei de Portugal tem na Índia? Quantas fortalezas tendes lá? Em que terras estão?
A conversa dura toda a manhã, até Sabla Vangél se quedar satisfeita com as respostas, dando-lhes então permissão para se retirarem.
Não voltou a chamá-los durante os dias que permaneceram na fortaleza, onde os mandara alojar, a fazerem os preparativos para regressarem ao navio. Vem assistir à sua partida, fora das suas casas para mais os honrar, despedindo os quatro emissários com presentes de ouro no valor de duzentos e quarenta cruzados, uma verdadeira fortuna que eles agradecem de joelhos, beijando-lhe a fímbria da veste.
– Pesa-me de vos ver ir tão cedo, mas já que é forçado ser assi, que a vossa tornada à Índia seja em muito boa hora e que lá vos recebam como Salomão recebeu a nossa rainha de Sabá14.
Sabla Vangél dá-lhes um capitão e vinte guerreiros para escolta e protecção, muitas mulas com mantimentos para a jornada e entrega a Vasco Martins de Seixas um rico presente para o governador, com uma carta a pedir-lhe socorro de gente armada. Para reforçar o seu pedido vai também um bispo abexim que o governador deverá enviar a el-rei de Portugal.
O numeroso bando chega ao porto de Daqhano sem sofrer nenhuma contrariedade e os portugueses embarcaram logo nos batéis que os levam à Silveira para fazerem o relatório aos capitães que ali tinham reunido o conselho dos seus oficiais para os ouvirem.
Fora auspiciosa a primeira empresa de Fernão, contudo, à saída do Reino do Preste João, a Fortuna caprichosa, que haveria de o perseguir sem descanso daí por diante, vai atirá-lo para as mãos do corsário Soleimão Dragut.