– El-rei despachou Mateus logo no ano seguinte à sua chegada, junto com o embaixador Duarte Galvão que levava um riquíssimo presente para o Preste. Eu acompanhei-os. Partimos na armada para a Índia com o governador Lopo Soares de Albergaria que ia substituir Afonso de Albuquerque, não por merecimento mas por influência de validos, Deus me perdoe se não é verdade o que digo! Durante a viagem, sobretudo em Cananor, semeou-se grande zizânia entre os embaixadores que viajaram juntos, porque Mateus era muito assomado e acusou Duarte Galvão de ter deixado morrer por falta de cuidados um nobre abexim da sua companhia. O nosso embaixador, quezilento e escorropião8 da muita idade e da viagem, acusou-o de ser mouro e falso enviado do Preste. Mateus insultou-o em aravia de tal modo que o língua se escusou a fazer a traslação porque as cousas que ele dizia não eram para se dizer e depois podiam dizer que não disseram tal.

É a vez de Pêro pasmar com os sucessos que desconhecia:

– E o governador não soube pôr fim à querela?

– Pelo contrário, ainda lançou mais achas na fogueira. Já na fortaleza de Cananor, em Outubro, mandou lavrar um auto, dando azo à má-língua dos argolões9, sobretudo do escrivão Vilalobos que era velhaco e inzoneirão. Estas traquinadas e inteligências estenderam-se por todo o ano que passámos na Índia, sem que Lopo Soares enviasse a embaixada ao Preste.

– Que coisa era, o presente? O Negusa Nagast crê que era outro e não o que lhe destes, pois este é mui pobre.

– E tem razão, o Preste! O outro era um tesouro sem preço e todo se perdeu! Sua Alteza queria mostrar-lhe que também o reino de Portugal era rico e poderoso – disse, com um misto de mágoa e orgulho. – Trazíamos armaduras, armas, arreios e selas de veludo. Havia uma cama completa, guarda-portas, mesas, cadeiras de estado, muitos panos de armar, bordados com histórias da Virgem e fábulas antigas, paramentos, baixelas de prata para as igrejas e muitos arcazes com obras de devoção. Da rainha D. Maria vinha para a esposa do Preste um riquíssimo livro de horas e para a rainha Helena uma meada de aljôfar com uma cruz de rubis.

– E tudo se perdeu? – repete Pêro, incrédulo, quando o padre se cala a retomar o fôlego. – Como se pode dar descaminho a um tesouro de tamanha grandeza?

Francisco Álvares encolhe os ombros, com desânimo ou resignação:

– Trouxemos também dois órgãos de foles e dois sinos grandes! A embaixada ia mui bem servida de gente, a começar pelo velho Duarte Galvão, um grande letrado que já fora como embaixador de Portugal a várias cortes de Europa e ao Papa. Vinham vinte mestres dos ofícios mecânicos, das armas e das artes da música, como organistas, pintores e até um imprimidor para o serviço do Preste. Só faltou vontade ao governador Lopo Soares de lhe dar conclusão, como se esta missão, por ser tão querida a Afonso de Albuquerque, lhe fosse especialmente odiosa.

– Se tal embaixada aqui tivesse chegado, quanto não haveria de ser o espanto e o acatamento do Preste e de todo este povo pelo reino de Portugal! E a minha missão estaria finalmente cumprida.

O confessor, ao notar o tom magoado da sua voz, muda de assunto:

– Mateus disse a el-rei D. Manuel que o Preste tem sob o seu poder sessenta e seis reis cristãos e oito mouros, no entanto, por onde passámos não vimos esses reinos grandiosos, cheios de palácios de que falava a carta do seu antepassado. Ou quaisquer cidades e vilas prósperas. As povoações não passam de aldeias e lugares de pastores, mais pobres do que os nossos.

– Os abexins são mui gravasolas10 e fazem-se grandes, maiores do que são de verdade – comenta Pêro, soltando uma risada. – Contam como reis os garâds e xums mais poderosos, que governam as províncias ou os grandes senhorios. Eu próprio, com o meu gulto ou feudo de muitas terras e vassalos, já entro também nesse rol. Perdoai-me, reverendo padre, a interrupção e contai-me por miúdos o que acaeceu à embaixada, que morro de o saber.

O religioso recolhe-se um pouco, a ordenar pensamentos, retomando a narrativa dos tristes sucessos que havia presenciado ou mesmo em que tinha participado como elemento apaziguador:

– Nos começos do ano de dezassete, Lopo Soares decidiu-se por fim a ir em busca da armada dos rumes, que era a maior ameaça para os portugueses da Índia, e de caminho deixaria a embaixada em qualquer lugar sujeito ao Preste. Duarte Galvão queria concertar com o imperador acções dos portugueses e abexins contra Meca, no mar Roxo, ao mesmo tempo que outras nações cristãs combateriam a Síria a fim de abrir caminho para Jerusalém.

– Era essa também a estratégia do Preste, ou antes, da Itegê Eleni e do Abuna, por verem como a Etiópia estava quase sem acesso ao mar, com todos os portos, desde Suaquim a Zeila, nas mãos dos mouros. Uma armada cristã a percorrer estas costas seria a salvação.

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