Do alto do seu castelo, vendo o turbilhão de cor, sons, gentes e animais que aos poucos se organizava numa grandiosa coluna muito bem concertada, onde cada figurante parecia conhecer de antemão o lugar que lhe competia, Fernão meditava sobre os estranhos desígnios e rumos que os Fados lhe traçavam, mudando-os a cada passo. Nesse tempo, estava longe de imaginar que, na sua segunda viagem ao Sião, voltaria a encontrar Domingos de Seixas, ainda mais rico e favorecido, servindo sob as suas ordens como mercenário, com outros cento e dezanove portugueses, nos exércitos do Senhor do Elefante Branco contra as forças do tirano Tabinshwethi, que tanto mal lhe causara.

Distrai-se com o alegre som da música dançada por bandos de homens, empunhando armas e simulando combates ou representando farsas, seguidos por ranchos de donzelas muito formosas, nos seus trajos cheios de cor e brilho, com toucados cónicos, em forma de pagodes bordados a ouro, movendo-se suavemente ao sabor da melodia das flautas, guizos e tambores, com passos lentos, gestos graciosos das mãos e do rosto, como quem conta uma história sem palavras.

Duas fieiras de meninas trazem cestos cheios de pétalas de flores que lançam pelo chão como um tapete perfumado, para a passagem do grande Elefante Branco, símbolo do poder do rei do Sião, tão raro entre os da sua espécie que os siames o tomam por uma criatura divina, cujo desaparecimento ou morte pode causar a perdição de Ayuthya. Fernão acha um desatino que reinos de tanta polícia travem crudelíssimas guerras pela posse de uma destas alimárias, apesar da sua raridade, contudo tal conflito existia desde o tempo da formação destas nações. Ele próprio ficara a conhecer a cobiça do tirano Tabinshwethi por estes elefantes, quando estivera com ele em Martavão e em Pegu. O rei de Bramaa, por ser senhor de maiores reinos e de mais gente do que Chai Raja, achava-se com mais direito à posse da venerada criatura e enviara uma grandiosa embaixada ao seu real vizinho a pedir-lhe um ou dois. A recusa zombeteira e a despropósito do senhor de Ayuthya afrontara Tabinshwethi, que jamais perdoava a quem o agravava ou lhe fazia perder a face e só não partira logo a dar-lhe guerra, por estar ocupado com o levantamento de alguns dos seus sawbwas no seu próprio reino – no entanto, os siames não perderiam pela demora.

Ei-lo que surge, rodeado por vinte e quatro criados munidos de sombreiros vermelhos de pé alto para lhe darem sombra! A poderosa alimária de pêlo branco-pérola avança majestosamente como um rei entre os seus vassalos, no meio de duas alas de elefantes, seis de cada lado, em cujos castelos se reclinam as esposas e concubinas de Chai Raja. A multidão baqueia de joelhos, deitando-se, não sobre os calcanhares, ao modo dos chins, mas de lado, com a testa a tocar o chão, mãos postas, erguidas acima da cabeça numa súplica ou agradecimento, abarcando o rei e a sua montada na mesma prece.

Na cadeira chapeada de ouro, semelhante a um trono, com cadeias grossas também de ouro que lhe cingem o torso como cintas, vai sentado com grande esplendor Chai Raja, o Vitorioso, graças ao médico português que lhe cuidou do ferimento e o salvou da morte. A seu lado leva a formosíssima Sri Suda Chan, a consorte favorita a quem satisfaz todos os desejos, e aos pés, em postura submissa, o pequeno príncipe, refém e penhor da vassalagem da rainha Chira Prapha, sua mãe, que favorecera os rebeldes.

Escarranchado no enorme cachaço do elefante, com um terçado de ouro na mão e uma aljava cheia de dinheiro, o pajem do rei lança punhados de moedas ao povo. Fernão avalia a quantidade de ouro que o bicho traz sobre si e pensa, com um misto de raiva e inveja, que bastavam as cadeias de várias voltas do seu imenso pescoço (sem meter no cômputo o enorme globo do mundo que traz suspenso da sua tromba) para fazer dele um homem rico para o resto da sua vida.

– Há alimárias com mais sorte do que gente! – suspira, agarrando-se ao bordo da cadeira que oscila fortemente quando o seu elefante se põe em marcha para se juntar aos trinta grandes senhores do reino que completam o séquito do divino animal. Atrás deles, uma guarda de três mil homens, todos em uniforme de gala e muito bem armados, formam a cauda do cortejo.

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