Nas últimas pazes que assinara com o rei do Sião, Tabinshwethi impusera como condições que Chai Raja ficasse seu vassalo, lhe desse uma filha sua por esposa e, a cada ano, lhe enviasse um dado número de elefantes de serviço e uma formosa donzela, filha de um dos seus mandarins principais, para o seu harém. O tirano recebera a princesa por mulher e retirara-se para o seu reino, tendo-lhe o sogro pago fielmente as páreas acordadas, todos os anos, até ao presente, em que os mandarins de Chiang Mai se levantaram contra o rei Khet Muang Klao, recusando-se a entregar a moça, quando a embaixada bramaa chegara para a receber.
– Tabinshwethi não gosta de mulheres e trata-as com muita crueza – queixaram-se no conselho d’el-rei.
– Só as quer para escravas. Ou para as dar aos seus favoritos.
– Porque havemos de sujeitar as nossas donzelas a um destino tão funesto?
– Dá-lhe os elefantes, mas não as nossas filhas – teimou o pai da donzela escolhida.
O rei Khet, com medo de quebrar as pazes com o temível Bramaa, insistira em cumprir o tratado, os mandarins descontentes tinham-no assassinado e passado à espada um grande número de gente fiel a Ayuthya. Outra história que corria era a da loucura do rei que levava o reino a perder e, por isso, tivera de ser afastado, mas vá-se lá a saber a verdade!
Chai Raja, muito afrontado com o regicídio dera ordens para armarem um arraial de tendas de campanha na outra margem do rio, onde se alojara para melhor cuidar da preparação do seu exército e mandara lançar pregões por toda a cidade, a convocar os homens para a guerra, sob a ameaça de terríveis castigos aos desobedientes ou desertores, que fizeram estarrecer de medo, tanto os siames como os estrangeiros:
Todo o homem, que por aleijão ou velhice não seja escuso de ir com el-rei a esta guerra, se faça prestes em termo de doze dias, sob pena de morrer queimado com infâmia perpétua a todos seus descendentes, e confiscação de seus bens para a coroa.
As mesmas penas seriam aplicadas a todos os estrangeiros que não saíssem do reino no termo de três dias. Sendo este prazo impossível de cumprir para a maioria da gente, o exército de Chai Raja não tardara a ser engrossado com milhares de soldados e cavaleiros das mais desvairadas nações e raças.
Por serem os portugueses a gente guerreira mais respeitada no Sião, o combracalão ou phra khalang, o ministro encarregue dos negócios marítimos e dos estrangeiros, honrara-os com a sua visita no Ban Portuguet, o campo português de Ayuthya, assente nuns terrenos rodeados por um canal do rio Chao Phraya como uma ilha, concedidos por Ramathibodi II a Duarte Coelho para povoação e morada dos portugueses, confirmados pelos seus sucessores, como recompensa pela ajuda militar dos lusos, quer como soldados quer no ensino das armas que lhes tinham alcançado grandes vitórias. A praça principal, onde ainda se erguia a grande cruz de madeira que Duarte Coelho tinha chantado quando ali viera, trinta anos antes, enchera-se com os residentes e mercadores convocados por Domingos de Seixas, que receberam o combracalão fazendo a zumbaia devida ao seu alto estado, de joelhos e batendo por três vezes com a testa no chão.
– Sua Alteza me manda rogar-vos em seu nome – anunciara, com uma amabilidade pouco usual nos ministros da corte –, por serdes quem sois, que o queirais acompanhar de vossa vontade nesta sua jornada. Chai Raja deseja muito entregar-vos a guarda de sua pessoa, por conhecer que sois mais para isso que todos os outros povos.
Para ajudar à eficácia do seu recado, acrescentara generosas promessas de grandes pagas, mercês, e honras:
– Sereis isentos do pagamento dos tributos sobre todas as mercadorias – lançara, sabendo ser aquela promessa a que mais poder tinha para convencer os estrangeiros e, depois de uma pausa, como se buscasse coragem ou lhe custasse a engolir, acrescentara a custo: – Sua Alteza dá-vos licença para fazerdes igrejas no reino e. está disposto a converter-se à vossa Lei, embora em segredo, para não causar revoltas do povo, em tempos tão conturbados.
Acabada esta fala, partira, deixando os portugueses varados de espanto.
– Chai Raja quer fazer-se cristão? Que sabe ele da nossa Fé?
– Quando el-rei me convoca à sua presença – disse António de Paiva, um dos mercadores mais ricos do Sião, homem fidalgo, letrado e de siso, por quem el-rei mostrava particular amizade, chamando-o amiúde ao palácio – procuro falar-lhe de Cristo e da nossa santa religião que, segundo ele crê, não difere muito dos ensinamentos de Buda. Ele ouviu sempre as minhas palavras com muita aceitação, no entanto, nunca pensei que quisesse abandonar as suas crenças.
– Não duvido de que o diz só para assegurar a nossa participação na guerra. Contudo, Deus escreve direito por linhas tortas.
– Se nem padre há entre nós, como se há-de baptizar el-rei?