Cada espécie de árvore

Cresceu na vasta floresta.

Disperso o pólen, libertando

celestes, deleitosos perfumes,

Flores desabrocham em grinaldas

Cachos e ramos.

(Dos Contos do Príncipe Sammutakote200)

O leito do canal Pla Mo parece refluir de susto à passagem dos dragões, serpentes, cavalos e outras míticas criaturas de pescoços empinados, fauces escancaradas, com dentes acerados e línguas pendentes de predadores. Nas últimas horas da segunda noite do crescente, emergem das sombras como uma horda de monstros farejando as presas na caçada.

Os cânticos marcam o ritmo dos remos e as chusmas das laulees dos cortesãos e servidores de Khun Worawongsa, esforçam-se por acompanhar as remadoras da barca real, que segue na frente, refulgindo nas chamas trémulas dos archotes e lanternas, ostentando orgulhosamente os estandartes e símbolos da antiga dinastia Uthong, de novo no poder.

No coberto do barco, que se assemelha a um templo ou palacete de madeiras finamente trabalhadas em graciosos minaretes com agulhas douradas, a rainha Sri Suda Chan, descendente dos primeiros reis de Ayuthya, reclinada no seu leito, sente uma opressão no peito, como um mau presságio que não a deixa saborear o momento da vitória e da sua consagração. Nem a presença do rei, seu marido, que joga com o pequeno Sri Sin, nem a filha que esbraceja no colo da ama ou os mexericos e gracejos das suas aias logram dissipar as nuvens sombrias que parecem adensar-se com o raiar da manhã. A imagem do abutre a voar em círculos sobre o palácio não a deixa sossegar.

Já vai a meio o nono mês do ano do Macaco, de mil quinhentos e quarenta e oito, um ano sumamente auspicioso que lhe propiciara a tessitura sem falhas de todos os desígnios, enredos e jogadas perigosas que concebera, permitindo-lhe a consumação das suas ambições do poder e do amor com que sempre sonhara. Assim lho profetizara a bisavó, a mais velha descendente dos Uthong, que vivia encerrada no seu paço, com a lepra a corroer-lhe o corpo e a fazer-lhe mais clarividente o dom da visão.

– Boon Sri é, como tu, do sangue real dos Uthong – dissera-lhe na sua voz enrouquecida de feiticeira – e ambos deviam estar no trono. Mas ele ocupa um miserável posto de curador de ritos e de pagodes e tu, em vez do título de rainha que te é devido, és apenas uma das quatro concubinas principais. Deste modo, os usurpadores Suphannaphum humilham os herdeiros da estirpe dos primeiros reis, quando devia ser um filho vosso a herdar o reino e a restaurar a nossa dinastia.

As palavras da velha princesa foram a chispa que lhe ateara a paixão desmedida por Boon Sri e a levara ao adultério, sem se importar com o risco que corria. Por ele jogara um jogo perigoso em que apostara tudo, incluindo a própria vida, e ganhara. O humilde brâmane curador do pátio exterior dos pagodes, que soubera enfeitiçá-la com a sua beleza e voz admirável, é agora Khun Worawongsa, o novo rei dos reis do Sião, coroado havia quarenta e dois dias, depois de removido o último obstáculo do seu caminho, o rei Yot Fa, o filho que concebera de Chai Raja.

Rodeara-se de parasitas dependentes dos seus favores, a fim de lhe conseguir primeiro a regência e logo a coroação, mas sabe que o trono ainda não está seguro. Embora se tivessem desembaraçado de quase toda a oposição, há muitas famílias nobres das outras três dinastias que a odeiam, acusando-a das mortes de Chai Raja e de Yot Fa, conspirando para a sua perda, chefiados pela ardilosa princesa Suriyothay, da dinastia Sukhothai.

Se esta caçada fosse bem sucedida e Boon Sri tomasse com as suas próprias mãos o divino elefante, símbolo do poder real, conquistaria o título de Senhor do Elefante Branco e com ele a confiança e devoção do povo. Por isso, concordara com a expedição às florestas de Lopburi, apesar dos maus pressentimentos, sobretudo, por esse convite ter partido do príncipe do Camboja, o filho adoptivo de Chai Raja e seu aliado.

O ano do Galo que se avizinha, segundo lhe vaticinara a bisavó, será propício à consolidação dos seus negócios e alianças, contudo não pode descurar os inimigos. Se Boon Sri caçar a sua presa, ela tratará de se desembaraçar sem demora da perigosa Suriyothay que não se poupa a esforços para os derrubar e pôr no trono o seu marido, Phra Thien, o meio irmão de Chai Raja. Ele é o espinho das suas vidas, a sua maior ameaça, apesar de se ter refugiado num templo, fazendo-se monge para escapar à prisão e morte por conspiração no assassínio do rei, de que ela o acusara.

Para seu maior desassossego, os espias tinham-na informado de que Suriyothay recebera a visita do seu parente Khun Phiren, descendente dos reis Sukhothai e comandante do poderoso exército do norte. Faziam parte das crónicas secretas da corte de Ayuthya os seus amores de juventude, contrariados pela família, que forçara Suriyothay a casar com o príncipe Thien. Aquele encontro secreto era a prova de que a sua adversária conspirava contra eles e convocara um poderosíssimo aliado.

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