Uma ameaça de que ela se livrara, mal o rei morrera. As criadas que ela mandara prender sob a acusação de terem envenenado o rei, confessaram sob tortura que o mandante do seu crime fora Phra Thien que conspirava para se apoderar do trono. Equivalia a uma condenação à morte do rival, contudo não fora assaz rápida no seu ataque e o espertalhão refugiara-se no templo, onde ela não lhe podia tocar. E também não era o momento azado de destruir Suriyothai, porque poria em pé de guerra os clãs Sukhothai.

Primeiro tinha de fortalecer a sua posição e, para isso, precisava de um corpo de guarda fiel, que exigira ao conselho dos ministros – um bando de fantoches que ela manobrava a seu bel-prazer –, com a desculpa da protecção de Yot Fa. Encarregara Boon Sri de criar um pequeno exército de cinco mil guerreiros fiéis para os ajudarem a tomar o trono de Ayuthya e a restaurar a dinastia Uthong. Com esta força a protegê-la, destruíra todos os seus adversários, cortando a cabeça aos chefes das principais famílias e destituindo outros dos seus cargos, confiscando-lhes as terras e os bens, que oferecia aos seus partidários. Deste modo, eliminara toda a oposição ao seu casamento com o amante, após o nascimento da filha ou quando o fizera regente do filho, em seu lugar, com o alto título de Khun.

Governaram, durante dois anos, sem grandes sobressaltos, até Yot Fa chegar à idade de treze anos e começar a fugir à sua autoridade, questionando-a, representando uma ameaça maior que tivera de ser removida. Fora a decisão mais terrível que tomara em toda a sua vida, todavia, a sobrevivência da dinastia Uthong obrigava a todos os sacrifícios. Desembaraçara-se de Chai Raja sem pena nem remorso, o regicídio fora, em todos os tempos e em todas as dinastias, o meio mais célere e comum para a tomada do poder, ele também o fizera ao sobrinho Ratsada. Yot Fa, porém, era seu filho e ela amava-o. Pedira à bisavó uma peçonha que o fizesse partir sem dor, como de uma febre própria das crianças e chorara-o com paixão, fazia agora quarenta e cinco dias, pranteava-o ainda em segredo no seu coração.

Os gritos de aviso e o som dos remos levantados em simultâneo libertam-na de novo do seu mundo de sombras e abismos, trazendo-a à superfície da luz que, nesse dia, parece quase tão baça e cinzenta como a sua alma. A barca real desliza pelo canal com um murmúrio roçagante de seda, apenas cortado de quando em quando pelos sons da floresta – grito de ave, guincho de macaco, barrito de elefante –, quase assustadores no meio do denso nevoeiro que os envolve como véus esfiapados de algodão. O marido sai do coberto e ela segue-o, levando o filho pela mão. Como uma cortina que se arreda, a névoa permite ver, mais abaixo no rio, as sombras de três laulees com homens armados.

– Quem vem lá? – brada de novo a capitã da sua guarda de corpo. – Quem sois?

– Quem ousa impedir-me a passagem? – pergunta Khun Worawongsa, com altivez.

– Eu, Khun Phiren! – replica o guerreiro, de pé no barco, de espada desembainhada. – Não esperes socorro do teu irmão, Nai Chan morreu. E tu vais morrer também!

– Traição! – grita o usurpador. – Sinalai à guarda!

Acercam-se da barca real, prontos para a abordagem, ao mesmo tempo que os barcos da comitiva e da guarda do rei a alcançam.

– Remai para a margem – ordena Sri Suda Chan às remadoras, com voz segura. – Protegei o rei!

Os barcos de socorro avançam, metendo-se entre a barca real e a frota dos conspiradores, disparando sobre eles os arcos e os mosquetes. As remadoras da rainha, exímias na sua arte, dão asas à embarcação que depressa atinge a margem. Ao desembarcar, apesar do nevoeiro, vêem avançar no seu encalço, do lado oposto do rio, duas novas embarcações.

– A minha aldeia fica perto – diz Prik. – Lá achareis abrigo e podereis pedir reforços.

– Salvai-vos – diz a capitã – que nós lhes impediremos o desembarque e a perseguição, enquanto houver vida nos nossos corpos.

Guiados pela fiel Prik e protegidos por um pequeno corpo de guardas, Boon Sri, Sri Suda Chan com o filho agarrado à sua mão e a ama com a princesinha ao colo embrenham-se na selva. Emboscados, os mercenários portugueses da companhia de Khun Phiren esperam por aqueles que logrem escapar aos barcos, com ordens de não perdoarem a vida a ninguém – homem, mulher ou criança –, excepto ao príncipe Sri Sin que, por ser do sangue real de Chai Raja, será entregue aos cuidados de Khun Thien.

Uma única descarga de mosquetes basta para pôr fim à vida dos fugitivos, selando para sempre a extinção da dinastia Uthong e Sri Suda Chan morre, amaldiçoando Thien e Suriyothay.

Com a morte da pérfida consorte, a sua narradora terminaria com chave de ouro a sua história e o capítulo, seguindo no rasto de Fernão Mendes Pinto para outras terras ou outros mares.

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