37 Forma aportuguesada de malaiala, malaiálam ou malaiálim, a língua do Malabar, da família dravídica, a que também pertencia o tâmil.

O homem é o seu próprio demónio

(hindu)

Carta de António Real a el-rei Dom Manuel:

O serviço que vosso capitão-mor [Afonso de Albuquerque] fez, depois que veio de Malaca, é este: meter-se nesta fortaleza com quarenta ou cinquenta putas, que, logo como chegou, mandou por elas a Goa, e outras que trazia de Malaca; e meteu-se com elas todas em uma torre, sem nunca sair, nem lhe poder falar homem nem mulher, nem requerer nada .

E, para verdes, senhor, quão bem guardada deixou esta fortaleza, levou toda a gente consigo e não deixou ninguém; e na torre da menagem, deixou todalas suas quarenta ou cinquenta putas, taipadas, e com capados dentro, em guarda; e por porteiro um Gonçalo Afonso, mealheiro; e deixou-lhes, para passearem, além da torre da menagem, toda uma sala e dous cubelos, sem nunca as ver ninguém, que não sei mosteiro de freiras tão encerrado; e eu pouso em um cubelo, sobre a porta, donde faço minhas vigias.

E estes são os homens que aqui deixou para guardarem a fortaleza; e diz que as tem assi guardadas para as casar; e ele não casa senão as que anda tomando aos homens que as têm em suas casas, criadas de pequenas, porque as suas todas que tem, com todas dorme, e Mafamede não teve tal vida.

E umas duas moças que eu tinha, que me ele não deu, e eu tomei por minha lança em Mombaça, sorraticiamente mas trazia enganadas, com suas embaixadas, que lhes mandava, que casassem a furto com alguém, e que seriam forras. Pelo qual, sendo eu uma noite a tirar a nau Enxobregas em terra, mandou um seu negro e outros seus moços que saltassem com elas e as recebessem, e que ele faria bom o casamento. Então me saltaram em casa, e me roubaram algumas cousas, que achei menos, e as receberam.

De Cochim, aos quinze dias de Dezembro de 1512

De início, Zobeida e Giauhare eram a sua única companhia, além das escravas cafres cujo linguajar mal entendia; mais tarde, já a viver na fortaleza, fizera amizade com algumas gentias, esposas ou amásias dos oficiais e mercadores, as quais já sabiam falar português o bastante para poderem praticar e até mexericar sobre a vida da colónia e dos seus moradores, gabando-se do seu poder sobre os estrangeiros vindos do outro lado do mundo.

– Quantos amantes tens na tua terra? Há lá míngua de mulheres ou sois vós que não sabeis agradar aos homens? – perguntavam-lhe, galhofeiras, enquanto enrolavam em folhas de bétele a noz de areca e cal, que mascavam para se sentirem bem dispostas e com bom hálito. Iria tomava apenas um pouco quando as visitava, para não as ofender, porque aquela droga que homens e mulheres mastigavam desde manhã até à noite, sem cessar, fazia-lhes os dentes pretos. – Os portugueses vêm famintos de amor e, por isso, apesar de vencerem os nossos homens pela força das suas armas, são sempre vencidos pela doçura das nossas – e riam-se ainda mais, fazendo rolar os olhos e a língua em azougados e lascivos trejeitos.

Havia alguma razão no que diziam. Além de usarem as numerosas escravas – compradas ou ganhas em combates na terra ou no mar – como concubinas e barregãs, os portugueses perdiam-se de amores por essas mulheres formosas e galantes, alvas ou pardas, que se vestiam da cinta para baixo com panos de seda ou algodão, segundo a sua qualidade, e da cinta para cima andavam nuas, ataviadas de colares, pulseiras e anéis de ouro e pedraria. Iria invejava-as. Eram mulheres muito isentas38 e senhoras dos seus corpos, pelo menos as das castas superiores, porque as de baixa condição eram mais desprezadas e maltratadas do que os mais vis escravos, não podendo sequer cruzar-se no caminho, olhar, falar e ainda menos tocar em qualquer pessoa das castas superiores à sua, sob pena de morte.

Como tinham a virgindade por coisa infame e vil, causadora da condenação eterna se morressem em tal estado, entregavam-se aos homens por dez réis de mel coado, sendo educadas na arte de agradar aos amantes. As próprias mães vinham à povoação vender as meninas virgens para grande deleite dos portugueses, que as achavam mais lustrosas e prestimosas em os satisfazer do que as suas conterrâneas. Por mais que D. Francisco de Almeida tivesse mandado os meirinhos prender os matalotes e soldados que dormiam com as mulheres da terra, não houvera penas nem castigos que os dissuadissem de ter conversação com elas.

Afonso de Albuquerque pusera freio àquela desvergonha, ao promover o casamento das gentias e mouras cativas, tornadas cristãs, com os portugueses que desejassem ficar na Índia, dando às noivas um dote e aos noivos terras e ofícios, a fim de terem filhos e criarem raízes nas terras conquistadas. Uma medida que escandalizara os fidalgos e a gente principal da Índia e do reino.

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