Quando o governador partira à conquista de Goa, António intrigara com os capitães para lhe danar a empresa e não lhe enviara as naus e homens de reforço que ele pedira; também não fizera as obras na fortaleza como lhe ordenara e usara esses materiais em seu próprio proveito. De regresso a Cochim, Albuquerque punira-o com dureza, multando-o e cortando-lhe um ano de soldo, porém, como el-rei D. Manuel o protegia e lhe dava poderes, crendo nas coisas que ele e o feitor lhe escreviam, António continuava a opor-se-lhe em tudo o que podia.

Iria lembrava-se de como eles também tinham festejado a sua morte, quando umas bruxas gentias lhes asseguraram que a armada fora destroçada e o governador morto com todos os seus capitães, durante o assalto a Malaca. Em vez de missa, requiem e procissão pela salvação da sua alma, apressaram-se a saquear e derrubar as casas onde morava, queimando-lhe uma nau em que tinha toda a sua fazenda.

Após a conquista de Goa e de Malaca, com a fuga e morte dos mouros, ficaram muitas mulheres. O governador anunciou que daria os palmares e as herdades abandonadas aos portugueses que se casassem com as mouras e as canarins que se fizessem cristãs, às quais concederia um dote de dezoito mil reais para ajuda da casa. Os que nada tinham de seu, nem no reino nem na Índia, aceitaram a oferta com tamanho alvoroço que o Terríbil não tivera mãos a medir com os pedidos.

Ainda nessa manhã, depois da missa, no largo da igreja onde se juntava a melhor gente de Cochim, António e o seu bando tinham achincalhado uma vez mais Afonso de Albuquerque a esse propósito.

– Os casamentos foram celebrados nas casas do governador e, como os noivos eram sem conto, os ofícios fizeram-se aos magotes, dia e noite. Ora ouvi esta cousa de pasmar: uma noite em que Afonso de Albuquerque presidia ao casório de um bando de doze ou mais casais, os parentes das noivas eram tantos que as tochas não chegavam para alumiar os noivos e acompanhantes no regresso a casa, pelo que os cortejos se misturaram e confundiram de tal modo que os maridos perderam as esposas no meio da multidão. E como a escuridão não os deixava ver o que buscavam, na confusão trocaram as mulheres e só viram o erro da troca na manhã do dia seguinte. – E António concluíra o seu relato, com muitas gargalhadas, limpando os olhos das lágrimas de gozo, no que era acompanhado pelos oficiais seus amigos: – Então, desfizeram o enleio, tomando cada um a que recebera por mulher, ficando o negócio da honra tal por tal!

– E agora quer que façamos o mesmo em Cochim, com este registo – acrescentara o escrivão da fortaleza, desdobrando um papel de timbre oficial e lendo em voz alta:

Per este me praz e hei por bem em nome d’elRei nosso senhor fazer mercê a Nuno Freire e a Filipa d’Albuquerque, sua mulher, em dote e em casamento, de uma horta com seu chão e assento em que faça umas casas, do qual pagará o dízimo a Deus quando for ordenado, e pera sua guarda e lembrança de quem isto houver de ver lhe mandei passar este assinado de minha mão, e será este registado no livro da câmara desta cidade.

– Vede como ele dá o seu próprio nome a estas cristãs-novas e chama genros aos maridos e filhas às esposas! – insistira António, por entre o coro de gargalhadas dos mofadores. – Diz que são casados pelo mandamento de Afonso de Albuquerque! Onde já se viu outra tal doudice num governador do reino?

Iria mantinha-se apartada do grupo dos homens, segurando o filho pela mão e tendo a seu lado Zobeida e Giauhare, que ela fizera baptizar, no mesmo dia que Diogo, com os nomes de Joana e Isabel. Naquele momento, e como sempre que apareciam na igreja ou no mercado, as moças eram o centro da atenção de todos os homens. De gentil porte e honesto parecer, muito belas e tão alvas como ela, em nada se pareciam com as cativas impúberes, tímidas e assustadas que António furtara em Mombaça. Viu os olhares cobiçosos que os companheiros do seu homem lançavam às moças e ouviu Lourenço Moreno dizer em tom brejeiro:

– Guarda bem aquelas tuas formosas bichas39, não vá ele tomar-tas! São pra teu uso ou vais pô-las no mercado? Se o fizeres, eu quero participar na almoeda40.

António olhara na sua direcção e, como quem queria ser ouvido por ela, respondera, alteando a voz para se sobrepor aos risos da companhia:

– Aquelas bichas não são para venda, são do serviço da Iria e do filho.

Manuel Paçanha retomara o assunto dos casamentos:

– Amigar-se com escravas e gentias é cousa natural e necessária à nossa gente, um amparo para quem vive fora de Portugal, anos a fio, apartado da família e em constante perigo de vida; porém, casar-se na igreja e com a bênção do Estado com essas bichas, ainda que alvas e gentis, e ter delas filhos lídimos é um destempero, um desvario que na verdade só lembraria a esse doudo.

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