– Sabeis a razão que ele dá para tamanho desatino? – perguntara o feitor Diogo Pereira, um dos mais venenosos mexeriqueiros de Cochim. – Diz que quer arrancar as cepas da má casta dos mouros de Goa para plantar novas cepas católicas, que com pregação e armas conquistem todo o Oriente!

– Nunca os portugueses poderão defender e sustentar Goa, sem nela despenderem todos os recursos da Índia – acudira Mendonça. – Hidalcão41, que é o maior e mais valente príncipe mouro destas terras, há-de tê-la sempre cercada, pelo que, para se não perder, as nossas armadas estarão empregues apenas na sua defensão, sem poderem atender a outros serviços de muito maior sustância.

– Razão tinha D. Francisco de Almeida, que Deus guarde em sua santa glória, para não lhe entregar a Índia, temendo que ele a deitasse a perder, como na verdade o faz – concluíra Real, sem esconder a satisfação que aquela prática lhe causara.

Iria ficara com o coração apertado de angústia, ao ouvir os doestos de Lourenço Moreno sobre as moças e fizera um tremendo esforço para engolir as lágrimas, de receio pela sua sorte. Nos últimos tempos tornara-se evidente a mudança de António no trato com Joana e Isabel, sobretudo no modo como as olhava, nos mimos que lhes fazia e elas recebiam constrangidas.

Afonso de Albuquerque mostrava-se tão bom e generoso para com as cativas cristãs que as suas amigas naturais de Cochim, assim como os criados e as escravas, os tendeiros, os mercadores, mais os artesãos e obreiras de todos os mesteres, não falavam de outra coisa senão desses casamentos. Apenas as nobres brâmanes e naires, devido aos seus grandes escrúpulos religiosos e por só lhes ser permitido casar dentro das suas castas, os repudiavam como uma infâmia que as desonraria. Muitos outros gentios, em particular as gentes de Goa e Malaca, sentiam-se felizes em oferecer as filhas aos portugueses, vendo como o governador as honrava, casando-as em sua casa, dando-lhes dotes em terras, fazendas, dinheiro e jóias que elas antes não possuíam, passando os seus parentes a gozar de uma vida segura e com privilégios que mais ninguém tinha na terra.

Aos portugueses bisonhos, degredados, sem eira nem beira, dos primeiros tempos, sucederam outros noivos de melhor e mais limpa geração, até já não se estranhar a alguns nobres e fidalgos o casamento com donzelas gentias da mesma condição ou mesmo de maior nobreza e riqueza. A razão disto fora a esperteza do governador que, por sua vez, jogara uma boa cartada contra os seus difamadores, ao escolher os melhores homens casados para vereadores, almotacéis, juízes, alcaides e demais ofícios da governação de Goa, cargos que eram sempre cobiçados e muito rogados por todos os que vinham para a Índia.

No auge dessa guerra, Iria foi apanhada entre dois fogos, e obrigada a uma escolha que mudaria, uma vez mais, o rumo da sua vida.

– Para duas malgas de azeite poreis a mesma quantidade de açúcar peneirado, meia malga de vinho branco e outra meia d’aguardente, dois ovos inteiros e três malgas de farinha com uma pitada de sal e uma colher de canela.

– Vinho e aguardente em biscoutos, madrinha?! – admirou-se Joana.

– Vamos ficar bêbadas! – riu-se Isabel, a mais moça e azougada das duas.

– Por isso, os biscoutos se chamam borrachões. A minha mãe fazia-os muitas vezes por serem os preferidos do meu pai – contou Iria, sentindo um aperto de saudade, mas logo dominou a emoção, acrescentando: – O vosso padrinho trouxe-nos esta saca de farinha de trigo, que cá se não cultiva, recomendando-me que só a usasse para fazer o pãozinho branco de que sente muito a falta.

– E se o senhor António se enfada e nos pune por furto? – perguntou Isabel assustada.

– Em provando os biscoutos, o vosso padrinho há-de perdoar-me o roubo – sossegou-as Iria. – E o mesmo se passará quando os fizerdes a vossos maridos, para que vos tenham mais amor.

Olhou-as com carinho, ouvindo-as rir, a disfarçar o rubor pela alusão ao casamento. Eram suas afilhadas, criara-as com amor de mãe e elas pagavam-lhe na mesma moeda, dedicando-se também de alma e coração ao pequeno Diogo, a quem mimavam como a um irmão mais novo; só com António guardavam uma reserva muito semelhante a medo ou ressentimento.

– Peneira a farinha para a bacia, com a joeira de seda, Joana, e faz-lhe uma presa no meio.

A moça obedeceu e Iria admirou os gestos delicados e precisos com que ela cumpria todas as tarefas. Rogara muitas vezes a António que lhes desse a alforria, porém ele respondera-lhe sempre que, em devido tempo, haveria de o fazer. Esse tempo era chegado e ela já não podia adiar aquela situação. Joana e Isabel estavam em idade de casar e eram pretendidas por dois sobrinhos do mercador Surendra Advani, um gentio rico, de boa casta e muito influente na terra, que tinha tratos com a fortaleza.

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